Insnia

(Graciliano Ramos)

28- EDIO
EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO - SO PAULO
(Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SP)
Ramos, Graciliano, 1892-1953 R143i Insnia: posfcio de Adonias Filho. Ilustrao de Axel 28 ed. Leskoschek.  28' ed.  Rio de Janeiro: Record,
2002.
p. ilust.
I. Filho, Adonias, 1915- . II. Leskoschek, Axel, 1889  ilust. 111. Ttulo.
72-0121
CDD  869.935
ndices para catlogo sistemtico 1. Contos: Sculo 20: Literatura brasileira
869.935 2. Sculo 20: Contos: Literatura brasileira
869.935
INSNIA 28a edio
Copyright by herdeiros de Graciliano Ramos Reservados todos os direitos de traduo e adaptao http://www.graciliano.com.br
Posfcio ADONIAS FILHO
Ilustraes AXEL LESKOSCHEK
so.erartoN
EDITORA AFILIADA
Direitos desta edio reservados pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S. A. Rua Argentina 171 Rio de Janeiro, RJ  20921-380  Tel.:
2585-2000
Impresso no Brasil
ISBN 85-01-00914-8

SUMRIO

Insnia, 07
Um ladro, 17
O relgio do hospital, 35
Paulo, 48
Luciana, 58
Minsk, 66
A priso de J. Carmo Gomes, 75
Dois dedos, 98
A testemunha, 110
Cimes, 121
Um pobre-diabo, 130
Uma visita, 140
Silveira Pereira, 152
Posfcio, 161
Dados Biogrficos De Graciliano Ramos, 170

Insnia

SIM ou no? Esta pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo e acordou-me. A inrcia findou num instante, o corpo morto levantouse rpido, como se
fosse impelido por um maquinismo.
Sim ou no? Para bem dizer no era pergunta, voz interior ou fantasmagoria de sonho: era uma espcie de mo poderosa que me agarrava os cabelos e me
levantava do colcho, brutalmente, me sentava na cama, arrepiado e aturdido. Nunca ningum despertou de semelhante maneira. Uma garra segurandome os
cabelos, puxando-me para cima, forando-me a erguer o espinhao, e a voz soprava aos meus ouvidos, gritada aos meus ouvidos: "Sim ou no?"
Nada sei: estou atordoado e preciso continuar a dormir, no pensar, no desejar, matria fria e impotente. Bicho inferior, planta ou pedra, num
colcho. De repente a modorra cessou, a mola me suspendeu e a interrogao absurda me entrou nos
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ouvidos: "Sim ou no?" Encostar de novo a cabea ao travesseiro e continuar a dormir, dormir sempre. Mas o desgraado corpo est erguido e no tolera
a posio horizontal. Poderei dormir sentado?
Um, dois, um, dois. Certamente so as pancadas de um pndulo inexistente. Um, dois, um, dois. Ouvindo isto, acabarei dormindo sentado. E escorregarei
no colcho, mergulharei a cabea no travesseiro, como um bruto, levantar-me-ei tranqilo com os rumores da rua, os preges dos vendedores, que nunca
escuto.
Um, dois, um, dois. No consigo estirar-me na cama, embrutecer-me novamente: impossvel a adaptao aos lenis e s coisas moles que enchem o colcho
e os travesseiros. Certamente aquilo foi alucinao, esforo-me por acreditar que uma alucinao me agarrou os cabelos e me conservou deste modo,
inteiriado, os olhos muito abertos, cheios de pavores. Que pavores? Por que tremo, tento sustentar-me em coisas passadas, frgeis, teias de aranha?
Sim ou no? Estarei completamente doido ou oscilarei ainda entre a razo e a loucura? Estou bem,  claro. Tudo em redor se conserva em ordem: a cama
larga no aumentou nem diminuiu, as paredes sumiram-se depois que apertei o boto do comutador, a faixa de luz que varre o quarto  comum, igual  que
ontem me feriu os olhos e me despertou subitamente.
Por que fui imaginar que este jato de luz  diferente dos outros e funesto? Ca na cama e rolei fora daqui nem sei que tempo, longe, muito longe,
gastando-me no espao. Partculas minhas boiaram  toa entre os mundos. De repente uma janela se abriu na casa vizinha, um jorro de luz atravessoume a
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vidraa, entrou-me em casa e interrompeu a ausncia prolongada.
Sim ou no? Quem me est fazendo na sombra esta horrvel pergunta? Com a golfada de luz que penetrou a vidraa, algum chegou, pegou-me os cabelos,
levantou-me do colcho, gritou-me as palavras sem sentido e escondeu-se num canto. Arregalo os olhos, tento convencer-me de que a luz  ordinria,
emanao de um foco ordinrio aqui da casa prxima. Se algum tivesse torcido uma lmpada para a esquerda ou tocado um boto na parede, eu teria
continuado a rolar na imensido, fora da Terra. Mas isto no se deu  e a rstia que me divide o quarto muda-se em pessoa.
Quem est aqui? Ser um ladro? Aventura intil, trabalho perdido. No possuo nada que se possa roubar. Se um ladro passou pelos vidros,
procur-lo-ei tateando, encontr-lo-ei num canto de parede e direi baixinho, para no amedront-lo: "No te posso dar nada, meu filho. Volta para o
lugar donde vieste, atravessa novamente os vidros. E deixame a qualquer coisa." No, nenhum ladro se engana comigo. Contudo algum me entrou em
casa, est perto de mim, repetindo as palavras que me endoidecem: "Sim ou no?"
Sim, no, sim, no. Um relgio tenta chamarme  realidade. Que tempo dormi? Esperarei at que o relgio bata de novo e me diga que vivi mais meia
hora, dentro deste horrvel jato de luz.
Um, dois, um, dois. Tudo isto  iluso. Ouvi uma pancada dentro da noite, mas no sei se o relgio est longe ou perto: o tique-taque dele  muito
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prximo e muito distante.
Sim ou no? Deverei levantar-me, andar, convencer-me de que sa daquele sono de morte e posso mexer-me como um vivente qualquer, ir, vir, chegar 
janela e receber o ar da madrugada? Impossvel mover-me. Para alcanar a janela preciso atravessar esta claridade que me fende o quarto como uma
cunha, rasga a escurido, fria dura, crua. Se a escurido fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que
tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mo que me apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente.
O relgio l embaixo torna a bater. Conto as pancadas e engano-me. Duas ou trs? Daqui a uma hora certificar-me-ei. Uma hora imvel, os cotovelos
pregados nos joelhos, o queixo nas mos, os dedos sentindo a dureza dos ossos da cara. O que h de sensvel nesta carcaa trmula concentrou-se nos
dedos, e os dedos apalpam ossos de caveira.
Um, dois, um, dois. Evidentemente me equivoco, no ouo o tiquetaquear do pndulo: o relgio afastou-se, gastar uma eternidade para me dizer se foram
duas ou trs as pancadas que me penetraram a carne e rebentaram ossos.
Que est aqui, a martelar no escuro, sim ou no, sim ou no, roendo-me, roendo-me? Ser um rato faminto que roeu a porta, se chegou a mim e continuou
a roer interminavelmente? No. Se fosse um
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rato, eu me levantaria, iria enxot-lo. Usaria as pernas, que se tornaram de chumbo, atravessaria a zona luminosa, acenderia um cigarro.
Houve agora uma pausa nesta agonia, todos os rumores se dissiparam, a vidraa escureceu, o soalho fugiu-me dos ps  e senti-me cair devagar na treva
absoluta. Subitamente um foguete rasga a treva e um arrepio sacode-me. Na queda imensa deixei a cama, alcancei a mesa, vim fumar.
Sim ou no? A pergunta corta a noite longa. Parece que a cidade se encheu de igrejas, e em todas as igrejas h sinos tocando, lgubres: "Sim ou no?
Sim ou no?" Por que  que estes sinos tocam fora de hora, adiantadamente?
A pessoa invisvel que me persegue no se contenta com a interrogao multiplicada: aperta-me o pescoo. Tenho um n na garganta, unhas me ferem, uma
horrvel gravata me estrangula.
Por que esto rindo? Hem? Por que esto rindo aqui no meu quarto? An, an! An, an! No h motivo. An, an! An, an! Um sujeito acordou no meio da noite,
no reatou o sono, veio sentar-se  mesa e fumar. Apenas. Inteiramente calmo, os cotovelos pregados na madeira, o queixo apoiado nas munhecas, o
cigarro preso nos dentes, os dedos quase parados percorrendo as excrescncias de uma caveira. Toda a carne fugiu, toda a carne apodreceu e foi comida
pelos vermes. Um feixe de ossos, escorado  mesa, fuma. Um esqueleto veio da cama at aqui, sacolejando-se, rangendo.
Sim ou no? L est o diabo do relgio a tiquetaquear, a matracar: "Sim ou no?" Desejaria que
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me deixassem em paz, no me viessem fazer perguntas a esta hora. Se pudesse baixar a cabea, descansaria talvez, dormiria junto  pilha de livros,
despertaria quando o sol entrasse pela janela.
Um, dois, um, dois. Que me dizia ontem  tarde aquele homem risonho, perto de uma vitrina? To amvel! Penso que discordei dele e achei tudo ruim na
vida. O homem amvel sorriu para no me contrariar. Provavelmente est dormindo.
Ter parado, o maldito relgio? Ter batido enquanto me ausentei, consumi sculos da cama para aqui?
Um silncio grande envolve o mundo. Contudo a voz que me aflige continua a mergulhar-me nos ouvidos, a apertar-me o pescoo. Estremeo. Como 
possvel semelhante coisa? Como  possvel uma voz apertar o pescoo de algum? Rio, tento libertarme da loucura que me puxa para uma nova queda,
explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoo no  uma voz:  uma gravata. A voz diz apenas: "Sim ou no?" Hem? Que vou responder?
H uma terrvel injustia. Por que dormem os outros homens e eu fico arriado sobre uma tbua, encolhido, as falanges descarnadas contornando rbitas
vazias? Hem? Os vermes insaciveis dizem baixinho: "Sim ou no?"
A luz que vinha da casa prxima desapareceu, a vidraa apagou-se, e este quarto  uma sepultura. Uma sepultura onde pedaos do mundo se ampliam
desesperadamente.
Sim ou no? Como entraram aqui estas palavras? Por onde entraram estas palavras?
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Enforcaram-me, decompus-me, os meus ossos caram sobre a mesa, junto ao cinzeiro, onde pontas de cigarros se acumulam. Estou s e morto. Quem me chama
l de fora, quem me quer afastar do tmulo, obrigar-me a andar na rua, tomar o bonde, entrar no caf?
Sim ou no? Sei l! Antes de morrer, agitei-me como doido, corri como doido, enorme ansiedade me consumiu. Agora estou imvel e tranqilo. Como posso
fumar se estou imvel e tranqilo? A brasa do cigarro desloca-se vagarosamente, chega-me  boca, aviva-se, foge, empalidece.  uma brasa animada, vai
e vem, solta no ar, como um fogo-ftuo. Os meus dedos esto longe dela, frios e sem carne, metidos em rbitas vazias. Toda a vontade sumiuse,
derreteu-se  e a brasa  um olho zombeteiro. Vai e vem, lenta, vai e vem, parece que me est perguntando qualquer coisa.
Evidentemente sou um sujeito feliz. Hem? Feliz e imvel. Se algum comprimisse ali o boto do comutador, eu veria no espelho uma cara sossegada, a
mesma que vejo todos os dias, inexpressiva, indiferente, um sorriso idiota pregado nos beios.
Amanh comportar-me-ei direito, amarrarei uma gravata ao pescoo, percorrerei as ruas como um bicho domstico, um cidado comum, arrastado para aqui,
para acol, dizendo frases convenientes. Feliz, completamente feliz.
Novos foguetes rompem a escurido e acendem novos cigarros. Feliz e imvel. Se a noite findasse, erguer-me-ia, caminharia como os outros, entraria no
banheiro, livrar-me-ia das impurezas que me es-
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to coladas nos ossos. Mas a noite no finda, todos os relgios descansaram  e a Terra est imvel como eu.
O silncio  um burburinho confuso, um sopro montono. Parece que um grande vento se derrama gemendo sobre as rvores dos quintais vizinhos. Um
zumbido longo de abelhas. E as abelhas partem os vidros da janela escura, o vento vem lamber-me os ossos, enrolar-se no meu pescoo como uma gravata.
Frio. A tocha quase apagada do cigarro treme; os dedos, que percorrem buracos de rbitas vazias, tremem. E a tremura reproduz o tique-taque de um
relgio.
Desejaria conversar, voltar a ser homem, sustentar uma opinio qualquer, defender-me de inimigos invisveis. As idias amorteceram como a brasa do
cigarro. O frio sacode-me os ossos. E os ossos chocalham a pergunta invarivel: "Sim ou no? Sim ou no? Sim ou no?"
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Um ladro

O que o desgraou por toda a vida foi a felicidade que o acompanhou durante um ms  ou dois. Coisa estranha: sem nenhuma preparao, um tipo se aventura, anda para
bem dizer  de olhos fechados, comete erros, entra nas casas sem  examinar os arredores, pisa como se estivesse na rua   e tudo corre bem. Pisa como se estivesse
na rua.   a que principia a dificuldade. Convm saber  mexer-se rapidamente e sem rumor, como um gato:  o corpo no pesa, ondula, parece querer voar, mal  se
firma nas pernas, que adquirem elasticidade de  borracha. Se no fosse assim, as juntas estalariam  a cada instante, o homem gastaria uma eternidade  para deslocar-se,
o trabalho se tornaria impossvel.  Mas ningum caminha desse jeito sem aprendizagem,  e a aprendizagem no se realizaria se as primeiras  tentativas fossem descobertas.
Deve haver uma divindade protetora para as criaturas estouvadas e de  articulaes perras. No comeo usam sapatos de corda - e
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ningum desconfia delas: conseguem no dar nas vistas, porque so como toda a gente. Nenhum polcia iria acompanh-las. Se no batessem nos mveis e
no dirigissem a luz para os olhos das pessoas adormecidas, no cairiam na priso, onde ganham os modos necessrios ao ofcio. A apuram o ouvido e
habituam-se a deslizar. C fora no precisaro sapatos de banho ou de tnis: mover-se-o como se fossem mquinas de molas bem azeitadas rolando sobre
pneumticos silenciosos.
O indivduo a que me refiro ainda no tinha alcanado essa andadura indispensvel e prejudicial: indispensvel no interior das casas,  noite;
prejudicial na rua, porque denuncia de longe o transeunte. Sem dvida o homem suspeito no tem s isso para marc-lo ao olho do tira: certamente
possui outras pintas, mas  esse modo furtivo de esquivar-se como quem no toca no cho que logo o caracteriza. O sujeito no sabia, pois, andar
assim, e passaria despercebido na multido. Por enquanto nenhuma esperana de se acomodar quele ingrato meio de vida. E Gacho, o amigo que o
iniciara, havia sido franco: era bom que ele escolhesse ocupao menos arriscada. Mas o rapaz tinha cabea dura: animado por trs ou quatro
experincias felizes, estava ali, rondando o porto, como um tcnico.
Entrara na casa, fingindo-se consertador de foges, e atentara na disposio das peas do andar trreo. Arrependeu-se de no ter estudado melhor o
local: devia ter-se empregado l como criado uma semana. Era o conselho de Gacho, que tinha prtica. No o escutara, procedera mal. Nem sabia j
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de que lado da sala de jantar ficava a porta da copa.
Afastou-se, receoso de que algum o observasse. Desceu a rua, entrou no caf da esquina, espiou as horas e teve desejo de tomar uma bebida. No tinha
dinheiro. Doidice beber lcool em semelhante situao. Procurou um nquel no bolso, estremeceu. As mos estavam frias e molhadas.
- Tem de ser.
Tornou a olhar o relgio. No  que se havia esquecido das horas? Passava de meia-noite. Felizmente a rua topava o morro e s tinha uma entrada. 
exceo dos moradores, pouca gente devia ir ali.
Afinal aquilo no tinha importncia. Agora temia encontrar um conhecido. O que mais o aperreava era o diabo da tremura nas mos. Estava quase certo de
que o garom lhe estranhava a palidez. Saiu para a calada e ficou indeciso, olhando o morro, enxugando no leno os dedos molhados, dizendo pela
segunda vez que aquilo no tinha importncia. Como? Sacudiu a cabea, aflito. Que  que no tinha importncia?
Seria bom recolher-se. Sorriu com uma careta e subiu a ladeira, colando-se s paredes. Como recolher-se? Vivia na rua.  medida que avanava a frase
repetida voltou e logo surgiu o sentido dela. Bem. A perturbao diminua. O que no tinha importncia era saber se a porta da copa ficava  direita
ou  esquerda da sala de jantar. Ia levar talheres? Hem? Ia correr perigo por causa de talheres? Mas pensou num queijo visto sobre a geladeira e
sentiu gua na boca,
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Aproximou-se do morro, as pernas bambas, tremendo como uma criana. Provavelmente a copa era  direita de quem entrava na sala de jantar, perto da
escada.
- Tem de ser.
Foi at o fim da calada e, margeando a casa do fundo, passou para o outro lado. Parou junto ao porto, encostou-se a ele, receando que o vissem. Se
estirasse o pescoo, talvez o guarda, l embaixo, lhe percebesse os manejos. O corao bateu com desespero, a vista se turvou. No conseguiria
enxergar a esquina e o guarda.
Encolheu-se mais, olhou a janela do prdio fronteiro, imaginou que por detrs da janela algum o espreitava, talvez o dono da loja de fazenda que o
examinara com ferocidade, atravs dos culos, quando ele estacionara junto do balco. Tentou libertar-se do pensamento importuno. Por que haveriam de
estar ali, quela hora, os mesmos olhos que o tinham imobilizado na vspera?
De repente sentiu grande medo, pareceu-lhe que o observavam pela frente e pela retaguarda, achouse impelido para dentro e para fora do jardim, a rua
encheu-se de emboscadas. A janela escureceu, os culos do homem da loja sumiram-se. Ps-se a tremer, as idias confundiram-se, o projeto que armara
surgiu-lhe como fato realizado. Encostou-se mais ao porto.
Durante minutos lembrou-se da escola do subrbio e viu-se menino, triste, enfezado. A professora interrogava-o pouco, indiferente. O vizinho
mal-encarado, que o espetava com pontas de alfinetes,
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mais tarde virara soldado. A menina de tranas era linda, falava apertando as plpebras, escondendo os olhos verdes.
Um estremecimento dispersou essas recordaes meio apagadas. Quis fumar, temeu acender um cigarro. Levantou a cabea, distraiu-se vendo um bonde rodar
longe, na boca da rua.
Sim, no, sim, no. Duas idias voltaram: o homem que se ocultava por detrs da janela estava aquecido e tranqilo, a menina das tranas escondia os
olhos verdes e tinha um sorriso tranqilo. Os dentes bateram castanholas, e isto alarmou-o: talvez algum ouvisse aquele barulho esquisito de porco
zangado. Mordeu a manga do palet, o som esmoreceu.
Sim, no, sim, no. Havia um relgio na sala de jantar, estava quase certo de que escutava as pancadas do pndulo. Os dentes calaram-se, felizmente j
no havia preciso de mastigar o tecido.
Mudou de posio, espreguiou-se, os receios esfriaram. Agora se mexia como se no houvesse nenhum perigo. Segurou-se aos ferros da grade, uma energia
sbita lanou-o no jardim. Pisando os canteiros, subiu a calada, arriou no sof do alpendre. Se o descobrissem ali, diria que tinha entrado antes de
se fechar o porto e pegara no sono. Era o que diria, embora isto no lhe servisse.
Para que pensar em desgraas? Levantou-se, chegou-se  porta, meteu a caneta na fechadura. O tremor das mos havia desaparecido. A lingeta correu
macia, uma folha da porta se descerrou. Estacou surpreendido: como nunca havia trabalhado s,
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imaginara que a fechadura emperrasse, que fosse preciso trepar no sof e cortar com diamante um pedao de vidraa. Deitaria por baixo da porta um
jornal aberto, enrolaria a mo no leno e daria um murro no vidro, que iria cair sem rudo em cima do papel. Agarrar-se-ia ao caixilho com as pontas
dos dedos, suspender-se-ia, entraria na casa, a cabea para baixo, as mos procurando o cho. Ficaria pendurado algum tempo, feito um macaco, os dedos
dos ps curvos  borda da abertura, como ganchos. Era quase certo no se sair bem nesse pulo arriscado. Falharia, sempre falhava.
Procurou a vidraa, inutilmente: no existia vidraa. Nem existia jornal. Estupidez fantasiar dificuldades.
Entreabriu a porta, mergulhou na faixa de luz que passou pela fresta, correu o trinco devagarinho. Avanou, temendo esbarrar nos mveis. Acostumando a
vista, comeou a distinguir manchas: cadeiras baixas e enormes que atravancavam a saleta. Escorregou para uma delas, o corao aos baques, o flego
curto. Afundou no assento gasto. As rtulas estalaram, as molas do traste rangeram levemente. Ergueu-se precipitado, encostou-se  parede, com receio
de vergar os joelhos. Se as juntas continuassem a fazer barulho, os moradores iriam acordar, prendlo. Achou-se fraco, sem coragem para fugir ou
defender-se. Acendeu a lmpada e logo se arrependeu. O crculo de luz passeou no soalho, subiu uma cadeira e sumiu-se. A escurido voltou. Temeridade
acender a lmpada. Penetrou na sala de jantar, escancarando mui-
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to os olhos. Agora os objetos estavam quase visveis. Uma sombra alvacenta descia pela escada, havia luz no andar de cima.
Bem. A porta da copa, um buraco negro, ficava  direita, como ele tinha suposto. Vira um queijo sobre a geladeira dois dias antes. Chegou-se  escada,
apoiou-se ao corrimo, voltado para a copa. Realmente no tinha fome. Sentia uma ferida no estmago, mas a boca estava seca. Encolheu os ombros.
Estupidez arriscar-se tanto por um pedao de queijo.
Subiu um degrau, parou arfando, subiu outros, experimentando uma sensao de enjo. A casa mexia-se, a escada mexia-se. A secura da boca desapareceu.
Dilatou as bochechas para conter a saliva e pensou no queijo, nauseado. Adiantou-se uns passos, engoliu o cuspo, repugnado, entortando o pescoo.
- Tem de ser.
Repetiu a frase para no recuar. Apesar de ter alcanado o meio da escada, achava difcil continuar a viagem. E se algum estivesse a observ-lo no
escuro? Lembrou-se do sujeito da loja de fazenda. Talvez ele fosse o dono da casa, estivesse ali perto, vigiando como um gato. Pensou de novo na
menina da escola primria, no sorriso dela, nas plpebras que se baixavam, escondendo olhos verdes, de gato. Desgostou-se por estar vacilando,
perdendo tempo com miudezas.
Chegou ao fim da escada, parou escutando, enfiou por um corredor onde vrios quartos desembocavam. Fugiu de uma porta iluminada e
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encaminhou-se  sala, com a esperana de encontr-la deserta. O medo foi contrabalanado por um sentimento infantil de orgulho. Realizara uma proeza,
sim senhor, s queria ouvir a opinio de Gacho. Se no acontecesse uma desgraa, procuraria Gacho no dia seguinte. Se no acontecesse uma desgraa.
Benzeuse arrepiado. Deus no havia de permitir infelicidade. Tolice pensar em coisas ruins. Contaria a histria no dia seguinte, sem falar no medo, e
Gacho aprovaria tudo, sem dvida.
Torceu a maaneta, devagarinho: felizmente a porta no estava fechada com chave. Aterrorizouse novamente, mas surgiu-lhe de supeto a idia singular
de que o perigo estava nos quartos, e na sala poderia esconder-se. Entrou, cerrou a porta, fez um gesto cansado, respirou profundamente, afirmou que
estava em segurana. A tontura devia ser por causa da fome. Tambm um desgraado como ele meterse em semelhante empresa! Tinha capacidade para aquilo?
No tinha. Um ventanista. Que  que sabia fazer? Saltar janelas. Um ventanista, apenas. A vaidade infantil murchou de repente. Se o descobrissem, nem
saberia fugir, nem acertaria com a sada. O que o preocupava naquele momento, porm, era menos o receio de ser preso que a convico da prpria
insuficincia, a certeza de que ia falhar. As mos tremeriam, as juntas estalariam, movimentos irrefletidos derrubariam mveis.
Apertou as mos, subitamente resolvido a acabar depressa com aquilo, fixou a ateno na cama enorme, onde um casal de velhos dormia. Baixouse,
alarmado: se uma das pessoas acordasse, v-lo-
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ia parado, como esttua. Avanou, de ccoras, foi esconder-se por detrs da cabeceira da cama, permaneceu encolhido, at sentir cibras nas pernas. As
janelas estavam abertas, a luz da rua banhava a sala.
Virando o rosto, viu-se no espelho do guardavestidos e achou-se ridculo, agachado, em posio torcida. Voltou-se, livrou-se da viso desagradvel,
avistou um brao cado fora da cama. Brao de velha, brao de velha rica, de uma gordura nojenta. A mo era papuda e curta, anis enfeitavam os dedos
grossos. Pensou em tirar os anis com agulhas, mas afastou a idia. Trazia no bolso as agulhas, s porque Gacho lhe ensinara o uso delas. No se
arriscaria a utiliz-las. Gacho tinha nervos de ferro. Tirar anis da mo de uma pessoa adormecida! Que homem! Anos de prtica, diversas entradas na
Casa de Deteno.
Engatinhando, aproximou-se do guarda-vestidos, abriu-o e comeou a revistar a roupa. Descobriu uma carteira e guardou-a sem reparar no que havia
dentro dela. Interrompeu a busca, afastou-se, mergulhou no corredor, parou  porta do quarto iluminado. Examinou a carteira, achou vrias notas.
Tentou calcular o ganho mas a luz do corredor era insuficiente. Escondeu o dinheiro, soltou um longo suspiro.
Devia retirar-se. Deu alguns passos, recuou vexado, receoso das pilhrias que Gacho iria jogar-lhe quando soubesse que ele tinha deixado uma casa sem
percorr-la. O terror desaparecera: estava cheio de espanto por haver escapado quele imenso perigo. Realmente no tinha escapado, mas julgava-se
quase livre.
Abriu uma porta a ferro, acendeu a lmpada,
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viu um oratrio. Desejou apoderar-se dos resplendores das imagens e do bordo de So Jos, de ouro, pesado. Afastou-se, com medo da tentao. No
cometeria semelhante sacrilgio.
Andou noutras peas, arrecadou objetos midos. Queria penetrar no quarto iluminado, mas no conseguia saber o que o empurrava para l. Boiavam-lhe no
esprito dois esboos de projetos: contar o dinheiro, coisa que no poderia fazer no corredor, e descrever a Gacho a aventura.
Destrancou a porta, entrou, esquivou-se para trs de um armrio. Havia no quarto uma cama estreita, mas nem reparou na pessoa que estava deitada nela.
Tirou do bolso a carteira, ficou algum tempo olhando, como um idiota, papis e dinheiro. Principiou uma soma, que se interrompeu muitas vezes: os
dedos tremiam, os nmeros atrapalhavam-se. Impossvel saber quanto havia ali. Machucou as notas na algibeira da cala. Bem, contaria depois a grana,
quando estivesse calmo. Abandonaria o morro e iria viver num subrbio distante, onde ningum o conhecesse, largaria aquela profisso, para que no
tinha jeito. Nenhum jeito. No diria nada a Gacho, evitaria indivduos assim comprometedores. Ia endireitar, criar vergonha, virar pessoa decente,
arranjar um negcio qualquer longe de Gacho. Sim senhor. Apalpou o rolo de notas atravs do pano, meteu o boto na casa da algibeira. Criar vergonha,
sim senhor, o que tinha ali dava para criar vergonha.
Olhou a cama, julgou a princpio que estava l uma criana, mas viu um seio e estremeceu. Voltou-se, no devia arriscar-se  toa. Deu uns passos em
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direo  porta, deteve-se, curvou-se, observou a moa. Achou nela traos da menina de olhos verdes. O corao bateu-lhe demais no peito magro,
pareceu querer sair pela boca.
- Estupidez.
Aprumou-se e desviou a cara. Estupidez. Tentou pensar em coisas corriqueiras, encheu os pulmes, contou at dez. A tatuagem da perna de Gacho era
medonha, uma tatuagem indecente; quela hora o caf da esquina devia estar fechado. Tornou a contar at dez, esvaziando os pulmes. Um acesso de tosse
interrompeu-lhe o exerccio.
Retirou-se precipitado, fazendo esforo enorme para se conservar em silncio. Faltou-lhe o ar, as lgrimas saltaram-lhe, as veias do pescoo
endureceram como cordas esticadas. Atravessou o corredor desembestadamente, desceu a escada, meio doido, sacudindo-se desengonado, a mo na boca.
Sentou-se no ltimo degrau e esteve minutos agitado por pequenas contraes, um som abafado morrendo-lhe na garganta, asmtico e penoso, resfolegar de
cachorro novo. Ps-se a arquejar baixinho, extenuado, procurando livrar-se de um pigarro teimoso que lhe arranhava a goela. Enxugou um fio de baba,
pouco a pouco se recomps. Certamente as pessoas do andar de cima tinham despertado quando ele fugira correndo.
Virou a cabea, puxou a orelha, agoniado. Tinha a iluso de perceber o trabalho das traas que roam pano l em cima, nos armrios.
Devia ter trazido alguma roupa para vender ao intrujo.
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Um apito na rua deu-lhe suores frios, um galo cantou perto. Depois tudo sossegou, avultaram no silncio rumores indeterminados: provavelmente ps de
baratas se moviam na parede.
Ergueu-se, com fome, libertou-se de terrores, procurou orientar-se. As ccegas na garganta desapareceram. Tolice prestar ateno  marcha das baratas
na parede e ao apito do guarda, na rua. Nada daquilo era com ele, estava livre de perigo. Livre de perigo. Se a tosse voltasse, abafa,-'a-ia mordendo
a manga. Temperou a garganta, baixinho. Tranqilo. Tranqilo e com fome. Voltou-se para um lado e para outro, hesitou entre a saleta e a copa. O
pigarro sumiu-se completamente, a boca encheu-se de saliva. Aguou ainda o ouvido: nem apito nem canto de galo, as pernas das baratas se tinham
imobilizado. Desejava entrar na copa, comer um bocado. Agora que a sufocao e a secura da boca haviam desaparecido, bem que precisava mastigar
qualquer coisa.
Apertou o boto da lmpada, a luz fraca lambeu a cristaleira, subiu a mesa, dividiu-a pelo meio. Descansou a lmpada na toalha. Bambeando, amolecido,
retirou da algibeira as notas machucadas, tentou novamente cont-las, aproximando-as muito do pequeno foco eltrico. Recomeou a contagem vrias
vezes, afinal julgou acertar, convenceu-se de que havia ali dinheiro suficiente para um botequim no subrbio. Alisou as cdulas, dobrou-as,
guardou-as, abotoou-se. Um capital. Sentia frio e fome. O guarda devia estar cochilando l embaixo,  esquina do caf. Levantou a gola. Um capital.
Estabelecer-se-ia
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com um caf no subrbio, longe de Gacho e daqueles perigos. Caf modesto, com rdio, os fregueses, pessoas de ordem, discutindo futebol. Tinha jeito
para isso. Ouviria as conversas sem tomar partido, no descontentaria ningum e fiscalizaria os empregados rigorosamente. Um patro, sim senhor,
fiscalizaria os empregados rigorosamente. E Gacho nem o reconheceria se o visse, gordo, srio, bulindo na caixa registradora. Naturalmente. Apalpou a
carteira, sentiu-se forte. Bem. Contanto que no fossem fuxicar poltica no caf. Esportes, coisas inofensivas, perfeitamente; mas cochichos, papis
escondidos, isso no. Tudo na lei, nada de complicaes com a polcia.
Aprumou-se, esqueceu o lugar onde estava. Uma dorzinha fina picou-lhe o estmago. Tomou a lmpada, encaminhou-se  copa, firme como um proprietrio. O
medo se havia sumido. Para bem dizer, era quase um dono de botequim no subrbio.
De repente assaltou-o um desejo besta de rir, riu baixo, temendo engasgar-se e tossir de novo. Sacolejou-se muito tempo, e a sombra dele danava na
luz que se espalhava no soalho. Tinha chegado fazendo tolices, nem acertava com as portas, um doido. Largara-se pela escada abaixo, aos saltos. E
ningum acordara, parecia que os moradores da casa estavam mortos. Ento para que todos os cuidados, todas as precaues? Gacho fazia trabalho
direito, tirava anis das pessoas adormecidas, com agulhas. Homem de merecimento. E, apesar de tudo, mais de vinte entradas na Casa de Deteno,
viagens  Colnia Correcional, fugas arriscadas. Intil a
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cincia de Gacho. Quando Deus quer, as pessoas no acordam.
Onde estaria o queijo que na antevspera se achava em cima da geladeira? Procurou-o debalde. Entrou na cozinha, mexeu nas caarolas, encontrou pedaos
de carne, que devorou quase sem mastigar. Lambeu os dedos sujos de gordura, abriu devagarinho a torneira da pia, lavou as mos, enxugou-as ao palet.
Respirou, consolado. A tontura desapareceu.
Recordou os disparates que praticara. Santa Maria! Desastrado. Se falasse a Gacho com franqueza, ouviria um sermo. Mas no falaria, no queria mais
relaes com Gacho, ia abrir um caf no arrabalde.
Voltou  sala de jantar e apagou a lmpada. Aquela gente l em cima tinha um sono de pedra.
Veio-lhe a idia extravagante de subir de novo a escada e tornar a desc-la, convencer-se de que no era to desazado como parecia. E lembrou-se da
menina dos olhos verdes, que lhe surgiu na memria com um seio descoberto. Absurdo. Quem estava com o seio  mostra era a moa que dormia no andar de
cima. Como seriam os olhos dela?
Duas pancadas encheram a casa. E um tiquetaque de relgio comeou a aperre-lo. Pouco antes havia silncio, mas agora o tique-taque martelavalhe o
interior.
Dirigiu-se  saleta, voltou com a tentao de entrar nos quartos, trazer de l alguns objetos para vender ao intrujo. Parecia-lhe que, recomeando o
trabalho em conformidade com as regras ensinadas
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por Gacho, de alguma forma se reabilitaria. O mao de notas, adquirido facilmente, nem lhe dava prazer.
Pisou a escada e estremeceu. As razes que o impeliam sumiram-se, ficou o peito descoberto.
Esforou-se por imaginar o botequim do arrabalde. Inutilmente. Subiu, parou  entrada do corredor.
- Que doidice!
Foi at a porta do quarto iluminado, empurroua, certificou-se de que a mulher continuava a dormir.
E da em diante, at o desfecho medonho, no soube o que fez. No dia seguinte, j perdido, lembrou-se de ter ficado muito tempo junto  cama,
contemplando a moa, mas achou difcil ter praticado a maluqueira que o desgraou. Como se tinha dado aquilo? Nem sabia. A princpio foi um
deslumbramento, a casa girando, a cama girando, ele tambm girando em torno da mulher, transformado em mosca. Girando, aproximando-se e afastando-se,
mosca. E a necessidade de pousar, de se livrar dos giros vertiginosos. A figura de Gacho esboou-se e logo se dissipou, os culos do homem da loja e
os vidros da casa fronteira confundiram-se um instante e esmoreceram. Novas pancadas de relgio, novos apitos e cantos de galos, chegaram-lhe aos
ouvidos, mas deixaram-no indiferente, voando. E aconteceu o desastre. Uma loucura, a maior das loucuras: baixou-se e espremeu um beijo na boca da
moa.
O resto se narra nos papis da polcia, mas ele, zonzo, modo, s conseguiu dar informaes incompletas e contraditrias.  em vo que o interrogam
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e machucam. Sabe que ouviu um grito de terror e barulho nos outros quartos. Lembra-se de ter atravessado o corredor e pisado o primeiro degrau da
escada. Acordou a, mas adormeceu de novo, na queda que o lanou no andar trreo. Teve um sonho rpido na viagem: viu cubculos sujos povoados de
percevejos, esteiras no cho mido, caras horrveis, levas de infelizes transportando vigas pesadas na Colnia Correcional. Insultavam-no, choviam-lhe
pancadas nas costas cobertas de pano listrado. Mas os insultos apagaram-se, as pancadas findaram. E houve um longo silncio.
Despertou agarrado por muitas mos. De uma brecha aberta na testa corria sangue, que lhe molhava os olhos, tingia de vermelho as coisas e as pessoas.
Um velho empacotado em cobertores gesticulava no meio da escada, seguro ao corrimo. E um grito de mulher vinha l de cima, provavelmente a
continuao do mesmo grito que lhe tinha estragado a vida.
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O relgio do hospital

OMDICO, paciente como se falasse a uma criana, engana-me asseverando que permanecerei aqui duas semanas. Recebo a notcia com indiferena. Tenho a
certeza de que viverei pouco, mas o pavor da morte j no existe. Olho o corpo magro estirado no colcho duro e parece-me que os ossos agudos, os
msculos frouxos e reduzidos no me pertencem.
Nenhum pudor. Algum me estendeu uma coberta sobre a nudez. Como  grande o calor, descobri-me, embora estivessem muitas pessoas na sala. E no me
envergonhei quando a enfermeira me ensaboou e raspou os plos do ventre.
Ao deitar-me na padiola, deixei os chinelos junto da cama; ao voltar da sala de operaes, no os vi.
O mdico se dirige em linguagem tcnica a uma mulher nova, e ela me examina friamente, como se eu fosse um pouco de substncia inerte, diz que os meus
sofrimentos vo ser grandes.
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Por enquanto estou apenas atordoado. Aquela complicao, tinir de ferros, mscaras curvadas sobre a mesa, o cheiro dos desinfetantes, mos enluvadas e
rpidas, as minhas pernas imveis, um trao na pele escura de iodo, nuvens de algodo, tudo me dana na cabea. No julguei que a inciso tivesse sido
profunda. Uma reta na superfcie. Consideravame quase defunto, mas no comeo da operao esta idia foi substituda por lembranas da aula primria.
Um aluno riscava figuras geomtricas no quadro-negro.
Morto da barriga para baixo. O resto do corpo iria morrer tambm, no dia seguinte descansaria no mrmore do necrotrio, seria esquartejado, serrado.
Fechei os olhos, tentei sacudir a cabea presa. Uma cara me perseguia, cara terrvel que surgira pouco antes, na enfermaria dos indigentes. Eu ia na
padiola, os serventes tinham parado junto a uma porta aberta  a grade alvacenta aparecera, feita de tiras de esparadrapo, e, por detrs da grade,
manchas amarelas, um nariz purulento, o buraco negro de uma boca, buracos negros de rbitas vazias. Esse tabuleiro de xadrez no me deixava, era mais
horrvel que as vises ferozes do longo delrio.
O trabalho dos mdicos iria prolongar-se, cacete, meses e meses, ou findaria vinte e quatro horas depois, no necrotrio? Cortado em pedaos, uma
salmoura esbranquiada cheirando a formol, o atestado de bito redigido  pressa, um cirurgio de mangas arregaadas lavando as mos,
extraordinariamente distante de mim.
Agora espero os sofrimentos anunciados. Um
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gemido fanhoso de relgio fere-me os ouvidos e fica vibrando. Insensvel, olho as pernas compridas, a dobra que entre elas se forma na coberta. Outras
pancadas vagarosas tremem, abafando os cochichos que fervilham na sala. Parece-me virem juntas  primeira: a meia hora decorrida perdeu-se.
Inrcia, um vcuo enorme, o prognstico da mulher nova ameaando-me. Sono, fadiga, desejo de ficar s. Algum se debrua na cama, encosta a orelha ao
meu corao. Furam-me o brao, uma agulha procura lentamente a veia.
Escurido, silncio. Depois um instrumento de msica a tocar, a sombra adelgaando-se, telhados, rvores e igrejas esboando-se a distncia. Tenho a
sensao de estar descendo e subindo, balanandome como um brinquedo na extremidade de um cordel.
A dormncia prolongada pouco a pouco se extingue. Os dedos dos ps mexem-se, em seguida os ps, as pernas  e enrosco-me como um verme. Uma angstia
me assalta, a convico de que me aleijaram. Esta idia  to viva que, apesar de terem voltado os movimentos, afasto a coberta, para certificar-me de
que no me amputaram as pernas. Esto aqui, mas ainda meio entorpecidas, e  como se no fossem minhas.
As idas e vindas, as viagens para cima e para baixo, cansam-me demais, penso que uma delas ser a ltima, que o cordel vai quebrar-se, deixar-me
eternamente parado.
Noite. A treva chega de repente, entra pelas janelas, vence a luz da lmpada. Uma friagem doce.
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A chuva aoita as vidraas. Durmo uns minutos, acordo, adormeo novamente. Neste sono cheio de rudos espaados  rolar de automveis, um canto de
bbedo, lamentaes dos outros doentes  avultam as pancadas fanhosas do relgio. Som arrastado, encatarroado e descontente, gorgolejo de sufocao.
Nunca houve relgio que tocasse de semelhante maneira. Deve ser um mecanismo estragado, velho, friorento, com rodas gastas e desdentadas. Meu av me
repreendia numa fala assim lenta e aborrecida quando me ensinava na cartilha a soletrao. Voz autoritria e nasal, costumada a arengar aos pretos da
fazenda, em ordens speras que um pigarro interrompia. O relgio tem aquele pigarro de tabagista velho, parece que a corda se desconchavou e a mquina
decrpita vai descansar.
Bem. Daqui a meia hora no ouvirei as notas roucas e trmulas. Vultos amarelos curvam-se sobre a cama, que sobe e desce, levantam-me, enrolamme em
pastas de algodo e ataduras, esforam-se por salvar os restos deste outro maquinismo arruinado. Um lquido acre molha-me os beios. Serventes e
enfermeiros deslocam-se com movimentos vagarosos de sonmbulos, a luz esmorece, d aos rostos feies cadaverosas.
Impossvel saber se  esta a primeira noite que passo aqui. Desejo pedir os meus chinelos, mas tenho preguia, a voz sai-me flcida, incompreensvel.
E esqueci o nome dos chinelos. Apesar de saber que eles so inteis, desgosta-me no conseguir pedilos. Se estivessem ao p da cama, sentir-me-ia
prximo da realidade, as pessoas que me cercam no
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seriam espectrais e absurdas. Enfadam-me, quero que me deixem. Acontecendo isto, porm, julgarme-ei abandonado, rebolar-me-ei com raiva, pensarei na
enfermaria dos indigentes, no homem que tinha uma grade de esparadrapos na cara.
Silncio. Por que ser que esta gente no fala e o relgio se aquietou? Uma idia acabrunha-me. Se o relgio parou, com certeza o homem dos
esparadrapos morreu. Isto  insuportvel. Por que fui abrir os olhos diante da amaldioada porta? Um abalo na padiola, uma parada repentina  e a
figura sinistra comeara a aperrear-me, a boca desgovernada, as rbitas vazias negrejando por detrs da grade alvacenta. Por que se detiveram junto
quela porta? Dois passos aqum, dois passos alm  e eu estaria livre da obsesso.
O relgio bate de novo. Tento contar as horas, mas isto  impossvel. Parece que ele tenciona encher a noite com a sua gemedeira irritante.
Dr. Queirs, principiando a falar, no acaba:  um palavreado infinito que nos enjoa, nos deixa embrutecidos, mudos, mastigando um sorriso besta de
cumplicidade.
Felizmente o homem dos esparadrapos vive. Repito que ele vive e caio num marasmo agoniado. No silncio as notas compridas enrolam-se como cobras,
estiram-se pela casa, invadem a sala, arrastam-se devagar nos cantos, sobem a cama onde me agito apavorado. Que fim levaram as pessoas que me
cercavam? Agora s h bichos, formas rastejantes que se torcem com lentido de lesmas. Arrepio-me, o som penetra-me no sangue, percorre-me as veias,
gelado.
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As vidraas, a chuva, os rudos, sumiram-se. H uma noite profunda, um cu pesado que chega at a beira da minha cama. As coisas pegajosas engrossam,
vo enlaar-me nos seus anis. Tento esquivarme ao abrao medonho, revolvo-me no colcho, grito.
Aparecem de novo as figuras atentas, lvidas. A beberagem acre umedece-me a lngua seca, dura como lngua de papagaio.
- Obrigado. - Puxo a coberta para o queixo, o frio diminui. H um rio enorme, precipcios sem fundo  e seguro-me a ramos frgeis para no cair neles.
Ouo troves imensos. Volto a ser criana, pergunto a mim mesmo que seres misteriosos fazem semelhante barulho. Meus irmos pequenos iam deitar-se com
medo, minhas tias ajoelhavam-se diante do oratrio, a chama das velas tremia, as contas dos rosrios chocavam-se como bilros de almofadas, um sussurro
de preces enchia o quarto dos santos.
Por que esto chiando aqui perto de mim? Estaro rezando? No houve troves. Nuvens brancas e altas correm por cima das rvores, das igrejas, do
telhado da penitenciria. Olho os tipos que me rodeiam. Afastam-se, falam em voz baixa, presumo que me espiam desconfiados. Acham-me com certeza muito
mal, pensam que vou morrer, procuram decifrar as palavras incoerentes que larguei no delrio. Envergonho-me. Terei dito segredos e inconvenincias?
Desejo atra-los, conversar, mostrar que sou um indivduo razovel e as maluquices do sonho findaram.
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Mas a linguagem foge. Procuro cham-los com um gesto, a mo tomba-me sobre o peito, uma fraqueza paralisa-me.
Certamente estou h dias entre a vida e a morte. Agora a febre diminuiu e os monstros que me perseguiam se desmancharam. As dores do ferimento so
intolerveis. Inclino-me para um lado e para outro, certifico-me de que no me trouxeram os chinelos, imagino que vou agentar uma eternidade de
martrios.
Gritos agudos de criana rasgam-me os ouvidos, como pregos.
Querem ver que a minha operao foi ontem e ficarei aqui amarrado semanas ou meses?
Uma badalada corta-me o pensamento. Estremeo: parece que ela me chegou aos nervos atravs da ferida aberta, me entrou na carne como lmina de
navalha.
Aqueles soluos desenganados devem vir da enfermaria dos indigentes, talvez o homem dos esparadrapos esteja chorando. Com esforo consigo encostar as
palmas das mos nas orelhas. Desejo ficar assim, mas a posio  incmoda, os braos fatigam-se, o choro escorrega-me entre os dedos. Se no fosse
isto, distrair-me-ia vendo as rvores, o cu, os telhados, falaria aos enfermeiros e aos serventes.
Que desgraa estar sucedendo? Deixo cair os braos, os uivos lastimosos da criana recomeam, as minhas dores crescem, do-me a certeza de que os
mdicos atormentam um pequenino infeliz. Penso nos vagabundos midos que circulam nas ruas, pedindo e furtando, sujos, esfrangalhados, os ossos
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furando a pele, meio comidos pela verminose, as pernas tortas como paus de cangalha. Talvez estejam consertando uma daquelas pernas.
Os gritos baixam, transformam-se num estertor.  Por que bolem com aquela criana? A enfermeira avizinha-se, espera que eu repita a pergunta.
Aborreo-me por no me haver feito compreender, viro-me com dificuldade e minutos depois ouo os passos da mulher, que se afasta nas pontas dos ps.
Far somente vinte e quatro horas que me deixaram aqui derreado? Somo: vinte e quatro, quarenta e oito, setenta e duas. Talvez uns trs dias. Isto,
setenta e duas horas. Os chinelos desapareceram: ficarei provavelmente um ms, dois meses. Multiplico: sessenta dias, mil e quatrocentas e quarenta
horas. Fatigo-me, e a conta se complica, ora apresenta um resultado, ora outro. Conveno-me afinal de que so mil quatrocentas e quarenta horas.  bom
que a ferida se agrave e me mate logo. Dois meses de tortura, um tubo de borracha atravessando-me as entranhas, vises pavorosas, os queixumes dos
indigentes que se acabam junto ao homem dos esparadrapos. Duas mil oitocentas e oitenta vezes o relgio caduco de peas gastas rosnar, ameaando-me
com acontecimentos funestos. Sessenta dias de imobilidade, o pensamento a emaranhar-se em cipoais obscuros.
Os gritos da criana elevam-se, o calor aumenta, as rvores e os telhados aproximam-se.
L esto novamente as horas a pingar do corredor como de uma torneira, gotas pesadas escorrendo lentas.
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Gargalhadas na rua, barulho de automvel, o prego de um vendedor ambulante. Talvez o automvel seja do mdico que me vem fazer o curativo. No ,
passou com um ronco de buzina. Agora o que h so rufos de tambor, vozes de comando.
O berro do vendedor ambulante caiu na sala de supeto e ficou rolando, misturado ao choro dos indigentes e ao rumor de ferros na autoclave.
- Porcaria, tudo uma porcaria. - Zango-me. No me tratam, deixam-me acabar  mingua, apodrecer como um corpo morto. Silncio demorado. Penso na
criana e no homem que se esconde por detrs da mscara de esparadrapos.
- Como vai o menino? 
A enfermeira responde-me que vai bem, mas certamente procura iludir-me. H um cadver mido perto daqui, vo despeda-lo na mesa do necrotrio, os
serventes levaro a roupa suja para a lavandaria. Um colcho pequeno dobrado na cama estreita.
As vozes de comando, os rufos, o prego do vendedor ambulante, o rumor dos ferros na autoclave, fazem-me falta. Conveno-me de que o silncio  de mau
agouro. Quando ele se quebrar, uma infelicidade surgir de repente, no poderei livrarme dela. O suor corre-me na cara. O primeiro som que vier
anunciar desgraa, esta idia desarrazoada no me larga. Reprimo um acesso de tosse, acredito que ele  indcio de hemoptises abundantes.
Comeo a perceber um toque-toque surdo, tropel de cavalo cansado. Naturalmente  o sangue batendo-me nos ouvidos. Um corao quase intil finda a
tarefa maadora.
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O cadver pequeno vai ser transformado em peas anatmicas.
Toque-toque. No  o sangue,  qualquer coisa que vem de fora, provavelmente do corredor. Duas pancadas prximas, uma distanciada, andadura irregular
de bicho que salta em trs ps. Ainda h pouco estava tudo calmo. De repente o relgio velho comeou a mexer-se e a viver.
Cerro os olhos, digo a mim mesmo que me fatigo  toa, bocejo, tento lembrar-me de fatos que julgo importantes e logo se tornam mesquinhos. Afinal no
veio a desgraa. Vou restabelecer-me em poucos dias. Vou restabelecer-me, passear nas ruas, entrar nos cafs. Se no tivessem levado os chinelos,
convencer-me-ia de que no estou muito doente.
Procuro dormir, esquecer tudo, mas o relgio continua a martelar-me a cabea dolorida. Espero em vo o fonfonar de um automvel, a cantiga de um
bbedo, as vozes de comando, o rumor dos ferros na autoclave. Tenho a impresso de que o pndulo caduco oscila dentro de mim, ronceiro e desaprumado.
Os infelizes calaram-se, todos os sofrimentos esmoreceram, fundiram-se naquela voz spera e metlica.
Os meus braos descarnados movem-se, como braos de velho. Passo os dedos no rosto, sinto a dureza dos plos, as faces cavadas, rugas. Se tivesse um
espelho, veria esta fraqueza e esta devastao.
Velhinho, trocando as pernas bambas nas caladas. Olho as pernas finas como cambitos. A vista escurece. Velhinho, arrimado a um cacete, balbuciando,
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tropeando. Toque-toque  o cajado a bater nos paraleleppedos.
O pensamento escorrega de um objeto para outro. A barba crescida deve ter ficado branca, o pescoo engelhou como um pescoo de galinha.
A mulher desapertava a roupa, despia-se cantando, e eu me conservava distante, encabulado, tentando desamarrar o cordo do sapato, que tinha dado um
n. No podia descalar-me e olhava estupidamente um despertador que trabalhava muito depressa. Os ponteiros avanavam e o lao do sapato no queria
desatar-se.
O professor explicava a lio comprida numa voz dura de matraca, falava como se mastigasse pedras.
O poltico influente entregava-me a carta de recomendao. Eu gaguejava um agradecimento difcil, atrapalhava-me por causa da datilgrafa bonita,
descia a escada perseguido pelos culos de um secretrio e pelo tique-taque da mquina de escrever.
Tudo se confunde. A rapariga que se despia, o professor, o poltico, misturam-se. A criana doente, os enfermeiros, os mdicos, o homem dos
esparadrapos, no se distinguem das rvores, dos telhados, do cu, das igrejas.
Vou diluir-me, deixar a coberta, subir na poeira luminosa das rstias, perder-me nos gemidos, nos gritos, nas vozes longnquas, nas pancadas medonhas
do relgio velho.
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Paulo

pEDAOS de algodo e gaze amarelos de pus enchem o balde. Abriram todas as vidraas. E no calor da sala mergulho num banho de suor. J me vestiram
diversos camises brancos, que em poucos minutos se ensoparam. No posso afastar os panos molhados e ardentes.
As crianas estiveram a correr no cho lavado a petrleo.
- Retirem essas crianas. Intil traz-las para aqui, mostrar-lhes o corpo que se desmancha numa cama estreita de hospital. No as distingui bem na
garoa que invade a sala: so criaturas estranhas, a recordao das suas fisionomias apagadas fatiga-me.
- Retirem essas crianas barulhentas. As paredes amarelas cobrem-se de pus, o teto cobre-se de pus. A minha carne, que apodrece, suja a gaze e o
algodo, espalha-se no teto e nas paredes.
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A alguns passos, uma figura de mulher se evapora. Aproxima-se, est quase visvel, tem uma cara amiga, uma vida que esteve presa  minha. Mas essa
criatura, dificilmente organizada, pesa demais dentro de mim, necessito esforo enorme para conservar unidas as suas partes que se querem desagregar.
As minhas plpebras cerram-se, a mulher esmorece, transforma-se em sombra plida. Se me fosse possvel falar, pedir-lhe-ia que me deixasse.
Os mdicos estiveram aqui h pouco, fizeram o curativo. Enquanto amarravam a atadura, os enfermeiros me levantavam, e eu me sentia leve, parecia-me
que ia voar, flutuar como balo, esgueirar-me por uma janela, fugir do cheiro de petrleo e do calor, ganhar o espao, fazer companhia aos urubus. As
palmas dos coqueiros ficariam longe, na praia branca, invisveis como a mulher que desapareceu na sala neblinosa. Os meus olhos no podem varar esta
neblina densa.
Creio que dormi horas. O balde sumiu-se. Muitas pessoas falam, h um burburinho interminvel na escurido. Seria bom que me deixassem em paz. A
conversa comprida rola na sala enorme; a sala  uma praa cheia de movimento e rumor.
A imobilidade atormenta-me, desejo gritar, mas apenas consigo gemer baixinho. Se pudesse, diria qualquer coisa  figura alvacenta, que tem agora as
feies de minha mulher. Um assunto me preocupa, mas certamente ela no me entenderia se eu fosse capaz de expressar-me. Contudo necessito pedir-lhe
que mande chamar o mdico. A voz sai-me
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arrastada, provavelmente digo incongruncias. Minha mulher espanta-se, grande aflio marcada nos beios lvidos e na ruga da testa.
Aborreo-me, exijo que me levem para a enfermaria dos indigentes. Estaria l melhor, talvez l me compreendessem. Horrveis estas paredes. Sinto-me
abandonado, lamento-me, injurio a criatura solcita que se chega  cama. Por que me olha com olhos de mal-assombrado? No percebeu o que eu disse? Bom
que me mandassem para a enfermaria dos indigentes.
A ferida tortura-me, uma ferida que muda de lugar e est em todo o lado direito. Procuro convencer minha mulher de que o lado direito se inutilizou e
 conveniente suprimi-lo.
A enfermaria dos indigentes. Que fim teria levado o mdico? Ele me compreenderia, no me olharia com espanto e ruga na testa.
A minha banda direita est perdida, no h meio de salv-la. As pastas de algodo ficam amarelas, sinto que me decomponho, que uma perna, um brao,
metade da cabea, j no me pertencem, querem largar-me. Por que no me levam outra vez para a mesa de operaes? Abrir-me-iam pelo meio,
dividir-me-iam em dois. Ficaria aqui a parte esquerda,, a direita iria para o mrmore do necrotrio. Cortar-me, libertar-me deste miservel que se
agarrou a mim e tenta corromper-me.
A neblina se dissipa, as paredes se aproximam, esto visveis as folhas dos coqueiros e o telhado da penitenciria, o avental da enfermeira aparece e
desaparece.
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A ruga da testa de minha mulher desfez-se. Provavelmente ela sups que o delrio tinha terminado. Absurdo imaginar um indivduo preso a mim, um
indivduo que, na mesa de operaes, se afastaria para sempre. Arrependo-me de ter revelado a existncia do intruso. Certamente minha mulher vai
afligir-se com a loucura que me persegue.
Fecho os olhos, vexado, como um menino surpreendido a praticar tolice. Finjo dormir: talvez minha mulher julgue que falei em sonho. Contenh a
respirao, o suor corre-me na cara e no pescoo.
L fora eu era um sujeito aperreado por trabalhos maadores, andava para cima e para baixo, como uma barata. Nunca estava em casa. Recolhia-me cedo,
mas o pensamento corria longe, fazia voltas em redor de negcios desagradveis. Recordaes de tipos odiosos, rancor, a idia de ter sido humilhado,
muitos anos antes, por um sujeito que se multiplicava.
O nevoeiro embranquece novamente a sala, as paredes somem-se, o rosto da mulher mexe-se numa sombra leitosa. Torno a desejar que me levem para a mesa
de operaes, cortem as amarras que me ligam ao intruso.
Evidentemente uma pessoa achacada tomou c  nta de mim. Esta criatura surgiu h dois meses, todos os dias me xinga e ameaa, especialmente de noite ou
quando estou s. Zango-me, discuto com ela, penso em Joo Teodsio, esprita e maluco. Joo Teodsio tem olhos medonhos, parece olhar para dentro e
fala nos bondes com passageiros invisveis. O homem que se apoderou do meu lado direito no
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tem cara e ordinariamente  silencioso. Mas incomoda-me. Defendo-me, grito palavres, e o semvergonha escuta-me com um sorriso falso, um sorriso
impossvel, porque ele no tem boca.
Tentei ler um jornal. As linhas misturavam-se, indecifrveis. Receei endoidecer, mastiguei uns nomes que minha mulher no entendeu, queixei-me do
mdico e de Paulo. Como ela no conhecia Paulo, impacientei-me, julguei-a estpida, esforcei-me por me virar para o outro lado, o que no consegui.
Certamente as criaturas que me cercam embruteceram, so como as crianas que estiveram correndo no cho lavado a petrleo. A enfermeira tem caprichos
esquisitos, o mdico no perceber que  necessrio operar-me de novo, minha mulher franze a testa e arregala os olhos ouvindo as coisas mais simples.
Comecei um discurso, uma espcie de conferncia, para explicar quem  Paulo, mas atrapalhei-me, cansei e desprezei aquelas inteligncias tacanhas.
Tempo perdido. Sentia-me superior aos outros, apesar de no me ser possvel exprimir-me.
Realmente Paulo  inexplicvel: falta-lhe o rosto, e o seu corpo  esta carne que se imobiliza e apodrece, colada  cama do hospital. Entretanto
sorri. Um sorriso medonho, sem dentes, sorriso amarelo que escorre pelas paredes, sorriso nauseabundo que se derrama no cho lavado a petrleo.
Escurece. A camisa molhada j no me escalda a pele: esfriou, gelou. E os meus dentes batem castanholas. Morrem os cochichos que zumbiam na sala.
Algum me pega um brao, dedos procuram a artria.
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A escurido se atenua, o burburinho confuso reaparece, a camisa torna a queimar-me a pele, os dentes calam-se. Incomoda-me a presso que me fazem no
pulso, tento libertar o brao. A mo desconhecida tateia, procurando a artria. H um zunzum na sala, vozes confundem-se como rumor de asas num
cortio. Sinto ferroadas terrveis na ferida.
Os dedos seguram-me, tenho a impresso de que Paulo me agarra. Um rumor enfadonho, provavelmente reproduo de maadas antigas, berros de patres,
ordens, exigncias, choradeira, gemidos, pragas, transforma-se num sussurro de abelhas que Paulo me sopra ao ouvido. Agito a cabea para afugentar o
som importuno. Se pudesse, cobriria as orelhas com as palmas das mos.
Afinal ignoro quem  Paulo e reconheo que minha mulher tem razo quando me oferece pedaos de realidade: visitas de amigos, colheres de remdio, a
comida horrvel.
Devo aceitar isso. Curar-me-ei, percorrerei as ruas como os outros. A princpio arrastar-me-ei pelos corredores do hospital, com muletas, parando s
portas das enfermarias dos indigentes; depois sairei, a perna ainda encolhida, andarei escorado a uma bengala, habituar-me-ei a subir nos bondes,
verei Joo Teodsio fazendo sinais misteriosos a um lugar vazio.
Preciso resistir s idias estranhas que me assaltam. Bebo o remdio, peo a injeo, espero ansioso que o mdico venha mudar a gaze e o algodo
molhado de pus. Entrarei nos cafs, conversarei sobre poltica.
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Uma, duas vezes por semana, irei com minha mulher ao cinema. De volta, comentaremos a fita, papaguearemos um minuto com os vizinhos na calada. No
nos deteremos  diante da porta de Joo Teodsio. Apressaremos o passo, fugiremos daqueles olhos medonhos de quem v almas.
Em que estar pensando Joo Teodsio? Minha mulher interroga-me admirada, repete palavras incoerentes que dirigi a Joo Teodsio.
Sem querer, entro a palestrar com ele, de volta do cinema. Apio-me  bengala e suspendo um pouco a perna avariada.
A ferida comea a torturar-me. No estou de p, cavaqueando com um vizinho amalucado, estou de costas num colcho duro. Veio-me um acesso de tosse, e
o tubo de borracha que me atravessa a barriga parece um punhal. Gemo, o suor corre-me entre as costelas magras como as de um cachorro esfomeado. Tenho
sede. A enfermeira chega-me aos beios gretados um clice de gua. Bebo, ponho-me a soluar. Os soluos sacodem-me, rasgam-me, enterram-me o punhal
nas entranhas.
Estou sendo assassinado. Em redor tudo se transforma. O avental da enfermeira ficou transparente como vidro. Minha mulher abandonou-me. Acho-me numa
floresta, cado, as costas ferindo-se no cho, e um assassino fura-me lentamente a barriga. As paredes recuam, fundem-se com o cu, as folhas dos
coqueiros tremem, e passa entre elas o cochicho que zumbe na sala.
Paulo est curvado por cima de mim, remexe com um punhal a ferida. Estertor de moribundo na
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floresta, perto de um pntano. H uma nata de petrleo na gua estagnada, coaxam rs na sala.
No conheo Paulo. Tento explicar-lhe que no o conheo, que ele no tem motivo para matar-me. Nunca lhe fiz mal, passei a vida ocupado em trabalhos
difceis, caindo, levantando-me, cansado. Peolhe que me deixe, balbucio splicas nojentas. No lhe quero mal, no o conheo.
Mentira. Sempre vivemos juntos. Desejo que me operem e me livrem dele.
Sairei pelas ruas, leve, e o meu corao bater como o corao das crianas. Paulo ficar na mesa de operaes, continuar a decompor-se no mrmore do
necrotrio.
O que estou dizendo, a gemer, a espojar-me,  falsidade. Paulo compreende-me. Curva-se, olha-me sem olhos, espalha em roda um sorriso repugnante e
viscoso que treme no ar.
Uma figura branca desmaia. O burburinho finda. Algum me segura novamente o brao, procurando a artria. O punhal revolve a chaga que me mata.
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Luciana

OUVINDO rumor na porta da frente e os passos conhecidos de tio Severino, Luciana entregou a Maria Jlia as revistas e as bonecas de pano, ergueu-se
estouvada, saiu do corredor, entrou na sala, parou indecisa, esperando que a chamassem. Ningum reparou nela. Papai e mame, no sof, embebiam-se na
palavra lenta e fanhosa de tio Severino, homem considervel, senhor da poltrona. Luciana adivinhava a considerao: os donos da casa escutavam, moviam
a cabea e aprovavam; na cozinha, resmungando, arreliando-se, a criada preparava caf. s vezes na famlia repetia-se uma frase que tinha peso de lei.
- Foi tio Severino quem disse.
- Ah!
E no se acrescentava mais nada. Luciana quis aproximar-se das pessoas grandes, mas lembrou-se do que lhe tinha acontecido na vspera. Mergulhou em
longa meditao. Andara com
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mame pela cidade, percorrera diversas ruas, satisfeita. Num lugar feio e escorregadio, onde a gua da chuva empoava, resistira, acuara, exigindo que
pusessem ali paraleleppedos. Agarrada por um brao, intimada a continuar o passeio, tivera um acesso de desespero, um choro convulso, e cara no
cho, sentara-se na lama, esperneando e berrando. Em casa, antes de tirar-lhe a camisa suja, mame lhe infligira trs palmadas enrgicas. Por qu?
Luciana passara o dia tentando reconciliar-se com o ser poderoso que lhe magoara as ndegas. Agora, na presena da visita, essa criatura forte no
anunciava perigo.
Luciana avizinhou-se do sof nas pontas dos ps, imitando as senhoras que usam sapatos de taco alto. Gostava desse exerccio, convidava a irm para
brincar de moa. Encolhida e plida, Maria Jlia cambaleava  e Luciana se arranjava s: prendia cordes numa caixa vazia, que se transformava em
bolsa, com um pedao de pau armava-se de sombrinha e l ia remedando um pssaro que se dispe a voar, inclinada para a frente, os calcanhares apoiados
em saltos enormes e imaginrios. Assim aparelhada, chamava-se D. Henriqueta da Boa-Vista. Manifestara-se  irm e  cozinheira. Como as duas no
admitiam que ela pudesse crescer de repente e mudar de nome, envolvera-as num largo desprezo e comeara a entender-se com as paredes: ficava horas
meneando-se, fazendo mesuras, dirigindo amabilidades s amigas invisveis de D. Henriqueta da Boa-Vista. Tio Severino era notvel: vermelho, tinha ma-
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arocas brancas no rosto, o beio e o queixo rapados, a testa brilhante, sobrancelhas densas e culos redondos. Entre os dentes amarelos a voz
escorria, pausada, nasal, incompreensvel. Luciana percebia as palavras, mas no atinava com a significao delas: arregalava os olhos claros, via a
figura engelhada aumentar, a roupa escura e os sapatos pretos incharem como pneumticos. Rondou por ali um instante, mas fatigou-se. Avistou no cabide
o guardachuva de tio Severino e foi examin-lo de perto, afastar as varetas, procurar um mecanismo por baixo do tecido. Desistiu da observao, meio
decepcionada, e ia esgueirar-se para o corredor quando algumas slabas da conversa indistinta lhe avivaram a recordao de outras slabas vagas,
largadas por um moleque na rua. Acercou-se do sof, interrompeu o discurso do velho e repetiu bem alto as palavras do moleque. Papai e mame
estremeceram, tio Severino engoliu em seco, murmurou:
- Esta menina sabe onde o diabo dorme. Luciana teve um deslumbramento, o coraozinho saltou, uma alegria doida encheu-a. Sentiu-se feliz e necessitou
desabafar com algum. Esquecendo-se de que naquele momento era D. Henriqueta da Boa-Vista, cruzou a sala em passo natural, os calcanhares tocando o
cho, desembestou no corredor e exibiu-se a Maria Jlia. Espalhou as revistas e as bonecas, ps-se a danar em cima delas. Como a outra casse no
choro, afligiu-se: consolou-a, achou-a mida, to mida que no servia para confidente. Regressou, muito leve, boiando naquela claridade que a
envolvia e penetrava.
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- Esta menina sabe onde o diabo dorme. Tio Severino tinha feito uma revelao extraordinria, e Luciana devia comportar-se como pessoa que sabe onde o
diabo dorme. Voltou a caminhar nas pontas dos ps, de uma parede a outra, simulando no ver o sof e a poltrona. Estava sendo observada, notavam nela
sinais esquisitos, sem dvida.
- Foi tio Severino quem disse.
- Ah!
Papai e mame, silenciosos, refletindo na opinio rouca do parente grande, com certeza diziam "Ah!" por dentro e orgulhavam-se da filha sabida.
Luciana estirou-se, ganhou pelo menos cinco centmetros. Moa, moa completa, inteiramente D. Henriqueta da Boa-Vista. Piscou o olho para tio
Severino, convenceu-se de que ele tambm piscava o olho e a considerava D. Henriqueta, sria, vagarosa, aprumada. Encostou-se  parede, enrugou a
testa, alongou o beio inferior, descansou as mos na barriga. Assim, adquiria muitos anos e inspirava respeito.
A cena da vspera atravessou-lhe o esprito e importunou-a. Sentada numa poa de gua suja, gritara, enlameara-se toda. Naquele despropsito, no era
D. Henriqueta da Boa-Vista, no era, evidentemente. Reagira aos chamados e s razes de mame e em conseqncia agentara trs palmadas. A recordao
delas atenazou Luciana: as rugas da testa desfizeram-se, o beio encolheu-se, os calcanhares desceram, os braos tombaram esmorecidos. D. Henriqueta
da Boa-Vista no se sentaria numa barroca cheia de lama.
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- Que vergonha!
Pouco a pouco a indignao transferiu-se e arrefeceu. A culpada era mame, que tivera a idia infeliz de meter-se num caminho onde no havia
paraleleppedos. Mundo bem estranho. Por que era que existiam lugares sem paraleleppedos? Este pensamento obliterou o castigo e a humilhao. Lugares
diferentes da calada tranqila, do quintal sombrio. Na esquina do quarteiro principiava o mistrio: barulho de carros, gritos, cores, movimento,
prdios altos demais. Talvez o diabo dormisse num deles. Em qual? Desanimada, confessou interiormente a sua ignorncia. No tinha notcia do que havia
alm das portas de vidro onde se expunham objetos inteis. E relativamente ao diabo, s podia garantir, baseada nas informaes da cozinheira, que ele
era preto, possua chifres e rabo. Chifres e rabo. Para qu? Admirou-se dessa extravagncia. Que preciso tinha ele de chifres e de rabo? Preto,
estava certo. No bairro moravam alguns pretos, sem chifres nem rabo. E se a cozinheira estivesse enganada? No esprito de Luciana, pouco inclinado a
dvidas, a pergunta esmoreceu, mas a indeciso momentnea descontentou-a: se privassem o diabo daqueles apndices, ele ficaria reduzido, um brinquedo
ordinrio. Estremeceu maravilhadas num susto que encerrava prazer, uma viso patent(ou-lhe a figura monstruosa. Certamente o diabo tinha gnio ruim,
em horas de zanga batia nas pessoas com o rabo, espetava-as com os chifres. E retinto, da cor de Seu Ado carroceiro Mas Seu Ado era bom, Seu Ado
era timo: quando via crianas chorando extravia-
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das, recolhia-as, contava histrias lindas, ria mostrando os dentes alvos. Procurou reconstituir uma das histrias, desviou-a lembrando-se do que lhe
sucedia ao apear da carroa e apresentar-se a mame.
- Tenha pacincia, dona, pedia o negro. Mexia na carapinha, sorria inquieto, afastavase levando a afirmao de que a pequena amiga no seria punida.
Mame no cumpria a palavra.
- Est direito, Seu Ado. Muito obrigada. Logo que ele dava as costas, enfurecia-se:  Esta menina tem parte com o diabo. E puxava as orelhas de
Luciana. Por qu? Certamente o diabo tambm fugia de casa. Lisonjeada e medrosa com a terrvel associao, Luciana persistia na desobedincia, os
puxes de orelhas no a livravam da curiosidade. Interrogara Seu Ado a respeito dos hbitos da obscura personagem, mas como dispunha de vocabulrio
escasso, no se explicara bem e obtivera respostas ambguas. Seu Ado, apesar de negro, no tinha parte com o diabo, provavelmente um sujeito sisudo,
triste, como tio Severino. O beio franzido e o olho duro de tio Severino. Que olho! Entrava-lhe na carne, um espeto, e as mos dela esfriavam.
Naquele dia, porm, o velho no lhe inspirava receio. Maiores que os dele eram os poderes do diabo, com quem Luciana se julgava de alguma forma
ligada.
- Esta menina tem parte com o diabo. A fala ranzinza feria-lhe os ouvidos, dedos finos e nervosos agarravam-na. Um susto, a impresso de ter perdido
qualquer coisa e achar-se em risco. Findo o sobressalto, imaginara-se protegida por
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entidades vigorosas e imortais. Agora a frase de tio Severino firmava-lhe a convico.
Ergueu-se de novo nas pontas dos ps, atirou na sala as suas longas pernadas sacudidas de ave. D. Henriqueta da Boa-Vista ps-se a dialogar
mentalmente, comentando a voz fanhosa, os culos, as maarocas que enfeitavam as bochechas de tio Severino. Realmente ele se equivocava: D. Henriqueta
da Boa-Vista reconhecia a prpria insuficincia. Ccegas arranhavam a garganta de Luciana, um riso agudo agitou-a. Alegrava-a o pensamento de que os
outros se iludiam, considerou-se atilada, capaz de provocar a admirao de criaturas experientes. Com certeza possua as qualidades necessrias para
instruir-se e confirmar o juzo de tio Severino. Por que era que ele no se referira a Maria Jlia? Coitada. Encolhida e bamba, Maria Jlia manejava
bonecas, sossegadinha, no corredor e na sala de jantar. D. Henriqueta da Boa-Vista era um azougue: tinha jeito de quem sabe onde o diabo dorme. Ainda
no sabia, mas haveria de saber. E cantava no ntimo. As solas dos sapatos mal tocavam o cho, o corpo magro balanava, indo e vindo, movendo as asas.
Descobriria o lugar onde o diabo dorme, comearia a busca no dia seguinte. No alcanava o ferrolho da porta, mas quando mame se distrasse,
arrastaria de manso uma cadeira, subiria  janela e saltaria  calada, sem rumor, como de ordinrio. Maria Jlia, recortando folhas de revistas, no
perceberia a fuga. E D. Henriqueta da Boa-Vista se largaria pelo mundo, importante, os calcanhares erguidos, em companhia de seres enigmticos que lhe
ensinariam
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a residncia do diabo. Dobraria a esquina, perderse-ia na multido, olharia os objetos arrumados por detrs dos vidros. Mais tarde Seu Ado a
embarcaria na carroa: "Foi um dia uma princesa bonita que tinha uma estrela na testa." Luciana recusava as princesas e as estrelas. Seu Ado coaria
o pixaim, encolheria os ombros. Lev-la-ia para a gaiola. Mame receb-la-ia zangadssima. E daria, quando Seu Ado se retirasse, vrias chineladas em
D. Henriqueta da Boa-Vista. Sem dvida. Mas isso ainda estava muito longe  e Luciana aborrecia tristezas.
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Minsk

Quando tio Severino voltou da fazenda, trouxe para Luciana um periquito. No era um cara-suja ordinrio, de uma cor s, pequenino e mudo. Era um
periquito grande, com manchas amarelas, andava torto, inchado, e fazia: "Eh! eh!"
Luciana recebeu-o, abriu muito os olhos espantados, estranhou que aquela maravilha viesse dos dedos curtos e nodosos de tio Severino, deu um grito
selvagem, mistura de admirao e triunfo. Esqueceu os agradecimentos, meteu-se no corredor, atravessou a sala de jantar, chegou  cozinha, exps 
cozinheira e a Maria Jlia as penas verdes e amarelas que enfeitavam uma vida trmula. A cozinheira no lhe prestou ateno, Maria Jlia franziu os
beios plidos num sorriso desenxabido. Luciana desorientou-se, bateu o p, mas receou estragar o contentamento, desdenhou incompreenses, afastou-se
com a idia de batizar o animalzinho.
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Acomodou-o no fura-bolo e entrou a passear pela casa, contemplando-o, ciciando beijos, combinando slabas, tentando formar uma palavra sonora. Nada
conseguindo, sentou-se   mesa de jantar, abriu um atlas. O periquito saltou-lhe da mo, escorregou na folha de papel, moveu-se desajeitado, percorreu
lento vrios pases, transps rios  e mares, deteve-se numa terra de cinco letras.
- Como se chama este lugar, Maria Jlia? Maria Jlia veio da cozinha, soletrou e decidiu:
- Minsk.
- Esquisito. Minsk?
- E.
No confiando na cincia da irm, Luciana pegou o livro, avizinhou-se de mame, apontou o nome que negrejava na carta, junto aos ps do periquito:
- Diga isto aqui, mame.
- Minsk. - Engraado. Pois fica sendo Minsk, sim senhora. Caminhou muito e parou em Minsk.  Minsk.
Nomeado o periquito, Luciana dedicou-se inteiramente a ele: mostrou-lhe os quartos, os mveis, as rvores do quintal, apresentou-o ao gato,
recomendando-lhes que fossem amigos. Explicou miudamente que Minsk no era um rato e, portanto, no devia ser comido. Advertncia desnecessria: o
bichano, obeso, tinha degenerado, perdido o faro, e queria viver em paz com todas as criaturas. Aceitou a nova camaradagem e, dias depois, estirado
numa faixa de sol, cerrava os olhos e agentava paciente bicoradas na cabea. Essa estranha associao
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lisonjeou Luciana, que sups ter vencido o instinto carniceiro da pequena fera e a mimoseou com as sobras da afeio dispensada ao periquito.
O instinto de mame  que no se modificava: de quando em quando l vinham arrelias, censuras, cocorotes e puxes de orelhas, porque Luciana era
espevitada, fugia regularmente de casa, desprezava as bonecas da irm e estimava a companhia de Seu Ado carroceiro.
- Luciana! Luciana estava no mundo da lua, monologando, imaginando casos romanescos, viagens para l da esquina, com figuras misteriosas que s vezes
se uniam, outras vezes se multiplicavam.
A chegada de Minsk alterou os hbitos da garota, mas isto no comeo passou despercebido e mame continuou a fiscalizar o ferrolho alto da porta, a
afastar as cadeiras da janela, excelente para fugas. Pouco a pouco cessaram as precaues  e as amigas invisveis de D. Henriqueta da Boa-Vista
deixaram de visit-la. D. Henriqueta da Boa-Vista era a personalidade que Luciana adotava quando se erguia nas pontas dos ps, a boca pintada, as
unhas pintadas, bancando moa. Perdeu o costume de andar assim, ganhar cinco centmetros apoiando os calcanhares nos taces inexistentes de D.
Henriqueta da Boa-Vista, esqueceu as escapadas, as aventuras na carroa de Seu Ado.
- Luciana! Agora Luciana se encolhia pelos cantos, vagarosa, Minsk empoleirado no ombro. Sentia-se novamente mida, quase uma ave, e tagarelava, dizia
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as complicaes que lhe fervilhavam no interior, coisas a que de ordinrio ningum ligava importncia, repelidas com aspereza. Mame saa dos trilhos
sem motivo. A criada negra, rabugenta, estpida, grunhia: "Hum! hum!" Maria Jlia era aquela preguia, aquela carne bamba, dessorada, e comportava-se
direito em cima de revistas e bruxas de pano, triste. Papai sumia-se de manh, voltava  noite, lia o jornal. E tio Severino, idoso, considerado,
sentava-se na cadeira de braos e falava difcil. Nenhum desses viventes percebia as conversas de Luciana. Seu Ado carroceiro  que procurava
decifr-las, em vo: arredondava os bugalhos brancos, estirava o beio grosso, coava o pixaim, desanimado. Por isso Luciana inventava interlocutores,
fazia confidncias s rvores do quintal e s paredes. Esse exerccio, agradvel durante minutos, acabava sempre fatigandoa. As sombras misturavam-se,
esvaam-se. Afinal desapareceram, substitudas pelo periquito, colorido e ruidoso, de esprito dcil e compreensivo.
- Minsk! Minsk arregalava o olho, engrossava o pescoo, crescia para receber a carcia:
- Eh! eh! Antes de amanhecer estalava na casa o grito agudo que aperreava mame. Uma ponta da coberta descia da cama da menina. O periquito se chegava
banzeiro, arrastando os ps apalhetados, segurava-se ao pano com as unhas e o bico, subia. Os braos magros de Luciana curvavam-se sobre o peito
chato, formavam um ninho. E os dois cochilavam um ligeiro sonho doce.
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Minsk era tambm um ser disposto s aventuras e  liberdade. Agitavam-no caprichos, confusas recordaes do mato, e batia as asas, alcanava a copa da
mangueira, Voava da, passava algumas horas vadiando pela vizinhana. Satisfeitos esses mpetos de selvagem, regressava, pulava dos galhos, pezunhava
no cho, domstico e trpego. Se se demorava na pndega, Luciana, inquieta, subia  janela da cozinha, sondava os arredores, bradava com desespero,
at que ouvia duas notas estridentes, localizava o fugitivo, saa de casa como um redemoinho, empurrava as portas, estabanada:
- Quero o meu periquito. Entrava sem cerimnia, dava buscas, voltava triunfante, com o vagabundo no ombro. Virava o rosto, enviava-lhe beijos. Minsk
se equilibrava agarrando-se  ala da camisa dela, metia a cabea no cabelo revolto, bicava delicadamente as orelhas e o couro cabeludo.
Ora, Luciana, estouvada, nunca via os lugares onde pisava. Mexia-se aos repeles, deixava em pontas e arestas fragmentos da roupa e da pele. Tinha
alm disso o mau vezo de andar com os olhos fechados e de costas. Sabia que essa maneira de locomover-se irritava as pessoas conhecidas, indivduos
ranzinzas, exigentes. Mas a tentao era forte. E se conseguia, de olhos fechados e de costas, atravessar o corredor e a sala de jantar, descer os
degraus de cimento, chegar ao banheiro, considerava-se atilada e rejeitava as opinies comuns. Otimismo curto. Uma pisada em falso, um choque na mesa,
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um trambolho, e o orgulho se desmanchava. Um calombo aparecia no quengo, engrossava, justificava as impertinncias caseiras. Luciana baixava a
crista, humilhada. Necessrio recomear as experincias, at acertar.,
Um dia em que marchava assim pisou num objeto mole, ouviu um grito. Levantou o p, sentindo pouco mais ou menos o que sentira ao ferir-se num caco de
vidro. Virou-se, alarmada, sem perceber o que estava acontecendo. Havia uma desgraa, com certeza havia uma desgraa. Ficou um minuto perplexa, e
quando a confuso se dissipou, sacudiu a cabea, no querendo entender.
- Minsk! A aflio repercutiu na casa, ofendeu os ouvidos de mame, de Maria Jlia, da cozinheira, chegou ao quintal e  rua.
- Minsk! gritou mais baixo. Parecia que era ela que estava ali estendida no tijolo, verde e amarela, tingindo-se de vermelho. Era ela que se tinha
pisado e morria, trouxa de penas ensangentadas. Minsk. Devia ser um sonho ruim, com lobisomens e bichos perversos. Os lobisomens iam surgir. Por que
no acordava logo, Deus do cu? Saltar a janela, andar em ruas distantes, entrar na carroa de Seu Ado.
- Minsk! Ele ia exibir-se, fofo, importante, banzeiro, arrastando os ps, todo frocado: "Eh! eh!"
- No morra, Minsk. Pobrezinho. Como aquilo doa! Um bolo na garganta, peso imenso por dentro, qualquer coisa a rasgar-se, a estalar.
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- Minsk! Ele estava sentindo tambm aquilo. Horrvel semelhante enormidade arrumar-se no corao da gente. Por que no lhe tinham dito que o desastre
ia suceder?  No tinham. Ameaas de pancadas, quedas, esfoladuras, coisas simples, sofrimentos ligeiros que logo se sumiam sob tiras de esparadrapo. O
que agora havia se diferenava das outras dores.
Os movimentos de Minsk eram quase imperceptveis; as penas amarelas, verdes, vermelhas, esmoreciam por detrs de um nevoeiro branco.
- Minsk! A mancha pequena agitava-se de leve, tentava exprimir-se num beijo:
- Eh! eh!
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A priso de J. Carmo Gomes

NA PEQUENA casa do Meyer,  Rua Castro Alves, D. Aurora Gomes, filha do Major Carmo Gomes, hoje defunto, soltou o jornal desanimada, com um aperto na
garganta, procurando ar, o diafragma contrado. Os intestinos remexeram-se, D. Aurora deu uns passos no corredor e dirigiu-se  sala de jantar. A,
debelado o tumulto das tripas, normalizada a respirao, encostou os cotovelos  janela, enxergou  direita o fundo da igreja,  esquerda o telhado
baixo do ncleo integralista e a ponta de um mastro onde s vezes se balanava a bandeira nacional. Era domingo. A igreja devia estar aberta quela
hora, mas a bandeira no se agitava em frente dela.
D. Aurora pensou no jornal abandonado minutos antes, uma angstia apertou-lhe novamente o corao e outras vsceras. Encaminhou-se ao banheiro,
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fechou-se. E a casa do Meyer, a casa que o Major Gomes adquirira em longos anos pacientes e arrastados, ficou deserta, para bem dizer ficou
deserta, apenas  com duas criaturas: o canrio e o gato. O canrio molhava-se no bebedouro da gaiola, o gato cochilava em cima de uma cadeira  e as
talas que os separavam permitiam entre eles uma espcie de cordialidade.
Entre D. Aurora e o irmo  que no havia cordialidade. Por isso um tinha sido comido.
Repiques de sinos, o prego de um vendedor ambulante, a asma do gato, o banho ruidoso do canrio, conversas indistintas na vizinhana, som de lquido
a ferver na cozinha. Depois gua a derramarse e a porta do banheiro a abrir-se.
D. Aurora entrou na sala de jantar, enxugando as mos nos cabelos, pisando macio, movendo os beios plidos. Sentou-se  mesa, friorenta, tentou
aquecer-se na faixa de sol que vinha da janela. Meteu os dedos midos no plo do gato, espiou a folhagem da roseira e o muro do quintal. Ergueu-se
cambaleando, quis ver o que havia l fora, recuou temerosa. A igreja era velha e firme, naturalmente, mas o edifcio fronteiro comeava a arruinar-se,
com certeza comeava a arruinar-se, e os freqentadores dele viviam por a  toa, escondidos, como ratos em tocas.
O badalar dos sinos animou-a debilmente. Outras pessoas iam agora  missa, rezar por ela: as filhas do sargento, a professora vesga, a mulher do
funcionrio da polcia, o caixeiro mope, os dois estudantes de cabelos escorridos, o instrutor do tiro.
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Consideradas em conjunto, de longe, essas figuras lhe pareciam capazes de sacrifcio e herosmo; isoladas, surgiam mesquinhas e egostas. O caixeiro e
as moas do sargento s se ocupavam com os seus negcios. Teriam os estudantes de cabelos escorridos aquele horrvel costume que lhes atribuam? D.
Aurora sacudiu a cabea e afastou o juzo temerrio. Para que estar catando defeitos no prximo? Eram todos irmos. Irmos. Estremeceu com uma
recordao desagradvel, que logo se apagou, olhou a igreja, refugiou-se ali um instante. Virou-se para o outro lado, avistou o mastro sem bandeira,
as portas fechadas do ncleo integralista. A vaga sensao de segurana que tinha experimentado vendo a igreja esmoreceu.
- Ai, ai. Suspirou, achou-se abandonada, sozinha, mida como um rato, exposta a inimigos numerosos. As notcias do jornal voltaram-lhe ao esprito:
gente oculta, casas varejadas, documentos apreendidos, fugas, uma trapalhada, santo Deus. Listas, listas que enchiam colunas. Torceu as mos,
recolheu-se precipitadamente, com a idia de que a espionavam dos quintais vizinhos.
Acariciou o gato, consolou-se um pouco afirmando interiormente que tinha muitos amigos, uma legio de amigos. Ignorava o sentido exato de legio, mas,
depois de escutar o discurso de um chefe, guardara a palavra, que parecia significar nmero e fora. Legio de amigos. Confiava nas coisas
indeterminadas. A confiana pouco a pouco mingou, a fortaleza e a quantidade reduziram-se, a
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legio distante se desagregou  e em lugar dela ficaram os dois rapazes de cabelos escorridos, o mope, o instrutor, as filhas do sargento, a professora
vesga e  a mulher do funcionrio da polcia. Achou-se perto dessas pessoas e enfraqueceu: evidentemente nenhuma delas poderia ajud-la. A suposio de
que a companhia boa na vspera se tornara inconveniente andou-lhe na cabea, localizou-se, permaneceu ali, esgaravatando-lhe os miolos.
Foi procurar um objeto no quarto, parou irresoluta diante do guarda-vestidos, viu-se no espelho, branca e agitada. Se algum a descobrisse,
perceberlhe-ia facilmente a consternao. Deu umas passadas trmulas, cerrou a porta, encostou-se  cabeceira da cama, enxugou na coberta os dedos
suados. Aproximou-se novamente do guarda-vestidos, estacou indecisa:
- Onde estou com a cabea? Coou a testa, o queixo, atenta aos rumores da rua. Provavelmente discutiam na cidade o enorme desastre. E, cedo ou tarde,
viriam cham-la, arrastla, deix-la muitos dias sentada numa cadeira, mal comida e mal dormida, ouvindo provocaes. Engulhou, as pernas fraquejaram.
Venceu a tonteira, esfregou as plpebras e respirou profundamente.
Com um sobressalto, recordou-se do que tinha ido fazer. Abriu o mvel, retirou de um gancho o uniforme. O corao engrossou, os olhos encheramse de
lgrimas. Numa espessa nvoa, a saia branca tornou-se quase invisvel, a blusa verde apareceu desbotada, o sigma negro da manga deformou-se. Engoliu o
choro, reprimiu a comoo, estendeu a roupa
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em cima da cama, afagou-a com os dedos e com a vista. De repente alarmou-se: cometia uma falta. Se entrassem na casa sem pedir licena e empurrassem a
porta do quarto, surpreend-la-iam tocando naqueles despojos comprometedores. Arrumou-os, empacotou-os numa toalha, escondeu-os na gaveta inferior da
cmoda, sob colchas e fronhas. Em seguida trancou a gaveta e guardou a chave no seio.
Momentaneamente liberta da opresso, retirouse do quarto, esgueirou-se pelo corredor, entrou na sala, acercou-se da janela, descerrou devagarinho a
rtula.
- Tudo bem escondido. Perturbada como estava, no poderia dizer se se referia aos chefes da insurreio ou  blusa e  saia que enrolara na toalha e
metera na gaveta da cmoda.
Avistou os estudantes lisos, assustou-se. Ia recuar, mas deteve-se envergonhada: renegar os companheiros assim era covardia. Virou-se e desejou no
ser vista. Um minuto depois, mordida pela curiosidade, envesgou um rabo de olho, percebeu os rapazes ali perto, de costas para ela, dobrando a
esquina. Indignou-se. Aqueles descarados pretendiam evit, la. Indecncia. Onde estava a solidariedade? Velhacos. Fingindo-se inocentes, receando
cumprimentla, como se ela tivesse uma doena contagiosa. Pois no eram inocentes, no. Tremeu pensando nos interrogatrios. Medonhos, no havia meio
de se guardar um segredo. Se a inquirissem brutalmente, se a atormentassem, como havia de ser? Na verdade sabia pouco, mas teria fora para
conservar-se calada?
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O funcionrio da polcia, amigo, passou na calada fronteira, proporcionou-lhe um choque, um sorriso vexado, uma inclinao de cabea. Caso o
funcionrio tocasse no chapu e viesse prosar com ela, D. Aurora se tranqilizaria completamente, exibiria firmeza, daria uma lio aos cretinos que
lhe tinham virado o focinho e at poderia colher algumas novas da encrenca. Uma conversinha mole s vezes serve. Falaria ao sujeito naturalmente, como
se no tivesse interesse, e recomendaria uns conhecidos que o jornal mencionava. No, no recomendaria ningum, seria imprudncia.
Esses pedaos de resolues contraditrias desfizeram-se num instante: o funcionrio afastouse coberto de sombras, e D. Aurora caiu na realidade, com
um arrepio no espinhao. Pegou-se  Virgem Maria, tentou justificar-se. No entendia aquela trapalhada: assalto ao palcio presidencial, a quartis, a
residncias particulares, tiros, brigas, mortes, um fim de mundo. Condenou os indivduos responsveis pela baguna, uns criminosos. Tinha alguma coisa
com eles? No tinha. Queria uma revoluo, ou antes quisera uma revoluo. Agora no queria nada, mas na semana anterior ainda sonhava com um barulho
diferente dos outros, um barulho dentro da ordem, sem risco. Certamente era preciso sangue. Em passeatas e em meetings algumas vezes se assanhara.
Sangue, perfeitamente, sangue dos inimigos da Ptria.
Aquele terrvel desfecho no entrara nos planos de D. Aurora. Sentia-se trada: pelos desordeiros, que tinham espalhado nas ruas confuso e
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terror, e pelo Governo, que teimava em conservarse, no se demitia, ranzinza. E tambm se considerava um pouco trada pelos seus chefes, por no
haverem previsto a desgraa e, em discursos, martelando o peito, berrarem com tanta energia que era difcil a gente no acreditar neles.
Fechou o postigo, entrou, mergulhou no sof, desorientada. As molas da pea antiga protestaram rangendo levemente. Assustou-se. No devia confiar em
ningum. Referia-se aos chefes, mas confundiuos com os autores da subverso. Sacudiu-se, afirmou que estes ltimos eram comunistas disfarados em
membros do partido, agentes de Moscou pagos para criar dissidncia l dentro.
O funcionrio da polcia tinha passado sem fazer a saudao do costume. Certamente a mulher estava encalacrada e ele precisava salv-la: ia tornar-se
rigoroso, rigoroso em demasia com os outros. Assim, desviaria suspeitas. D. Aurora refletiu com mgoa nessas intransigncias repentinas, na malcia e
na fraqueza de amigos que desertam em horas de aperto. Mas o pesar misturou-se com admirao e temor. Um estranho respeito amolecia-a, jogava-a
perplexa, aos sujeitos hbeis que escolhem a posio conveniente, a palavra exata, a hora de bater palmas. Ela, coitada, entregara-se antes de tempo.
E lamentava no poder explicar-se, gritar que reprovava aquele desconchavo e respeitava a autoridade.
Ps-se a fazer um longo exame de conscincia, mergulhou n passado, lembrou-se do Major Carmo Gomes, gordinho, baixinho, terrivelmente conservador,
desgostoso do filho, que no arranjava
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profisso decente e lia brochuras subversivas. Para consertar esse filho degenerado, o Major esgotara todas as razes conhecidas, e, incapaz de
lev-lo ao bom caminho, recorrera s ameaas:
- Tu acabas na cadeia, Jos. O rapaz ouvia sem discutir e continuava agarrado aos folhetos. No encontrando resistncia, o velho excitava-se,
monologava, soprava, afinal explodia:
- Tu acabas na cadeia, Jos. Tanto repetira a frase que D. Aurora se convencera de que o fim do irmo seria realmente a cadeia.
O Major sucumbira em poucos minutos. Estivera a desatinar sobre um romance de foice e martelo, atacara rijamente essa literatura execranda, sentira-se
mal, recolhera-se - e o aneurisma rebentara de chofre. D. Aurora, nos chiliques do enterro, juntara soluos, fragmentos de oraes e objurgatrias
incongruentes ao irmo, quase um parricida.
- Que ser de mim, santo Deus? choramingava sem cessar.
Esse brado egosta no tinha cabimento: D. Aurora ficava com algumas economias, a casa do Meyer, o soldo e o montepio do finado. Jos comeava a
ganhar dinheiro nos jornais, de ordinrio comia fora, no dava incmodo. E quando aparecia na Rua Castro Alves, passava semanas batendo na mquina,
folheando os livros excomungados e rasgando papis.
D. Aurora desconfiava desse trabalho misterioso
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e aborrecia o irmo por ele ser plido e encolhido, falar baixo e pouco, ou largar tiradas incompreensveis que a deixavam de boca aberta. Nesses
instantes de comunicabilidade a fraqueza do rapaz se desvanecia, e D. Aurora tinha a impresso de que ele a enganava fingindo-se amarelo e achacado.
De repente estalara a revoluo de 30. E, mal recomposta, de luto ainda, a moa quase endoidecera. Imaginava bombardeios areos, tremia como um pinto
molhado, no sossegava, no dormia. Desgraas nasciam-lhe no esprito, obscuras, terrveis, tomavam formas esquisitas e concentravam-se no Meyer. O
grito de um carroceiro avisara-a de que iam derrubar as igrejas. D. Aurora entrava em igrejas por hbito, como noutros lugares, mas estava apavorada 
e as igrejas pareceram-lhe de supeto asilos sagrados. A professora vesga cochichara uns boatos concernentes a roubos e violaes. D. Aurora procurava
debalde um canto para se esconder. Admitia que lhe arrebatassem os haveres, mas o atentado contra a sua pureza resistente era demais.
Lembrava-se da Histria do Brasil. A professora no era vesga, era fanhosa. "Quem foi o primeiro Governador-Geral?" Quantas mudanas depois desse
primeiro Governador-Geral! As estampas representavam ndios monstruosos, nus, de beios furados. Os revolucionrios no se distinguiam bem deles:
saqueavam, queimavam, destruam. E D. Aurora passava noites horrveis. Num jejum prolongado, sentia a cabea rodar, rodar, o pescoo transformar-se
num parafuso. As paredes do quarto desmoronavam-se lentamente, selvagens nus iam
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danar e fazer caretas em torno da sua cama. Caamlhe depois em cima do corpo, machucavam-na, arranhavam-na, rasgavam-na. Ela soltava gritos em vo e
no dia seguinte erguia-se a custo, os olhos arregalados cheios das vises do pesadelo. As mos trmulas comprimiam a barriga, os beios lvidos
mexiam-se balbuciando.
- "Quem foi o primeiro Governador-Geral?" Tentava encher o espao que a separava desse primeiro Governador-Geral, mas a havia uma escurido, uma
amlgama de fatos nunca percebidos convenientemente e agora obliterados. Esforava-se por se recordar de outras revolues. O medo no lhe permitia
relacionar as idias. Precisava fugir, no sabia para onde. Um dia trancara a porta, largarase  toa, em busca de um refgio. O irmo fora encontr-la
muito longe de casa, quase a chorar. E ela se deixara conduzir passivamente. Ouvia conselhos, sentia uns dedos lhe sacudirem o brao, e no escutava
nada nem opunha resistncia.
Desde esse momento, enervada, ficava horas quieta, os cabelos em desalinho, os dentes sujos, indiferente a tudo, como se j no fosse deste mundo,
esperando resignada o martrio, desejando at que ele viesse logo e aquilo findasse. Na sua alma acabrunhada operava-se uma reviravolta: agora xingava
o Governo. Se se entregasse o poder aos revolucionrios, eles no teriam motivo para zanga e talvez usassem generosidade.
No abandono e na inconscincia, enrugada e envelhecida, percebera a vitria da sublevao. Dificilmente emergira do torpor, readquirira pouco a
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pouco a integridade, mas conservara uma inquietao, o receio de que novas tempestades se armavam, raiva a inimigos invisveis que lhe haviam causado
tanto susto.
Tempo depois a professora vesga lhe fizera uma visita e estivera duas horas a admirar-lhe a casa, o quintal, a moblia, o retrato do Major Gomes,
exposto na sala, junto ao Corao de Jesus. D. Aurora recebera o inventrio dessas vantagens com um sorriso modesto e a alegria de quem se considera
invejado. Tinha onde encostar os ossos, no importunava ningum.
- Pois no ? tornara a professora. Independncia.
Ela no gozava independncia. Humilhava-se ao ponto e ao senhorio, mas respeitava a independncia alheia. Afinal a casa no cara do cu por descuido:
fora construda pelo Major. D. Aurora escutava assombrada e a outra continuava a embara-la:
- C para mim acho isso um roubo. Eles prometem farmcia, mdico e a educao dos meninos. Mas a senhora no est doente nem tem filhos.  razovel
que lhe tomem a casa? No .
D. Aurora, atrapalhadamente, defendera os seus direitos mais ou menos assim:
- D. Jlia, penso que a senhora est equivocada. No temos questo com pessoa nenhuma, graas a Deus. Os nossos papis esto em regra, todos os
impostos pagos na Prefeitura. A casa  nossa, minha e de meu irmo Jos.
- Seu irmo...
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D. Jlia franzira um sorriso azedo. E D. Aurora, com a pulga atrs da orelha:
- Diga, D. Jlia... A professora vesga batera nos beios e eximirase de avanar qualquer palavra que originasse discrdia na famlia.
- Estamos numa poca terrvel, D. Aurora.
-  exato. A senhora sabe alguma coisa? Essa histria da casa? Como  isso?
D. Jlia generalizara a dificuldade: no se tratava especialmente da casa do Meyer, mas de todas as casas que eles pretendiam invadir.
- Eles quem, D. Jlia?
- Os comunistas. Se essa cambada subisse, a senhora iria trabalhar numa fbrica e calar tamancos.
- Ora essa! murmurara a filha do Major, desanuviada. Quando a senhora me falou daquele jeito, assustei-me. No sobe no. Deus  grande.
- Est bem, est bem. E a visita se despedira com frases vagas, entre elas algumas que o Major costumava empregar nas suas investidas aos hbitos
perniciosos do filho.
-  isso mesmo, D. Jlia. O mundo est virado.
Suicdios, fome, devastao. D. Aurora, esquecida de que esses horrores lhe haviam sido agourados inutilmente em 1930, voltara a rece-los  e cara
na sacristia, encomendara-se aos santos, pedira a Nossa Senhora que estabelecesse um cordo sanitrio em redor do Brasil. Tornara-se amiga ntima da
professora e, conversa vai, conversa vem, tivera
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a notcia de que o cordo sanitrio existia. O que era preciso era engross-lo.
- A senhora acredita que eles salvem a gente? exclamara meio incrdula. No sei no. At agora eu julgava isso uma brincadeira, uma espcie de
carnaval.
-  o seu erro, D. Aurora. Abra os olhos. A senhora vive to retirada... O futuro do Brasil  verde. Verde, a cor das nossas esperanas, a cor das
nossas florestas.
- Como disse, D. Jlia? A pregao inicial continha um trecho referente  concepo totalitria do universo  e D. Aurora se espantara, querendo saber
se a vesga ficava naquilo ou ia expor coisas mais fceis de entender. Inteirando-se de que havia creches, escolas, armas, dinheiro, tipos grados
interessados no negcio, balanara a cabea, concordando:
- Bem, isso  outra cantiga. Vieram a encrenca do Rio Grande do Norte e o levante do 3? Regimento. A imprensa derramara abundantes mincias. E D.
Aurora de repente se convertera. Pensando pouco, vendo inimigos em toda a parte e desejando ardentemente elimin-los, aderira ao Sigma com fervor e
intransigncia. As notcias de prises davam-lhe um sombrio contentamento.
- Vo-se os anis, fiquem os dedos. Seria bom que as cadeias se enchessem e abarrotassem, at no haver c fora nenhuma semente ruim. E como as
sementes ruins eram as que germinavam longe da plantao verde, D. Aurora achava
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natural o despovoamento do pas. Antes isso que aceitar misturas perigosas e corrutoras. Apesar de muito corte e muito estrago, ainda sobrariam
elementos sos, que se multiplicariam. D. Aurora desejava uma nova humanidade, pensava nela com ternura, enquanto odiava furiosa adversrios e
neutros. Inadmissvel qualquer neutralidade quando as foras do mal se desencadeavam, ameaavam subverter noes de pedra e cal.
As idias morais de D. Aurora se alteravam profundamente. Eram bons os indivduos que se achavam perto dela, eram maus os que passavam de largo. Se
algum despia a camisa verde, perdia numerosas virtudes, e o que a vestia, embora fosse um malandro, purificava-se. Fora do Sigma no havia salvao.
Duas espcies de homens: amigos e inimigos.
Na nsia de proselitismo, esquecia os deveres domsticos; s lia as publicaes de propaganda; gestos desrespeitosos, sorriso irnico ou erguer de
ombros, davam-lhe frias tremendas.
Numa parada ouvira esta observao: "Quanta gente feia!" Examinando os companheiros mais prximos, notara sujeitos de cabeas midas, corcundas, moas
amarelas de rostos inexpressivos, um aborto cabeludo que devia ter bem oitenta anos. Como supor que daquela carne fraca sairiam geraes fortes e
belas? A instituio perfeita apresentava falhas a quem a via sem entusiasmo. E D. Aurora arrefecera, murchara, receara que a concepo tolitria e
outras frmulas no bastassem para debelar o anarquismo, o comunismo, a democracia, ini-
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qtiidades indecisas que ela atrapalhava. Sentia esses malefcios imponderveis em toda a parte: nos jornais, nas sesses de espiritismo, nas lojas
maniellti, nas fbricas, nas reparties, nas escolas, nos Nitnibas dos morros, nas macumbas, em pedaos de onversas na rua. Para que lutar? Seria
necessrio suprimir todos os meios de contgio, e isto no era vutpreitada para uma D. Aurora da Rua Castro Alves.
Passara dias incapaz de ao, imaginando a onda vermelha a crescer, a afogar tudo, a sujar tudo. hl ser poluda por brutos. Fechava-se no quarto,
deitava-se, estrangulando o choro. Bamba, a respirao curta, as asas do nariz palpitando, deixava-se ultrajar em pensamento. Coitadinha. No ficaria
na Rua Castro Alves. Iam apoderar-se da casa, destruir a moblia, o Corao de Jesus, o retrato do Major. I a filha do Major rolaria  toa pela
cidade, arriaria num canto de muro ou num vo de porta, rasgada e faminta, quase maluca, sufocada pela fumaa dos incndios. Libertava-se com esforo
desses desflnimos, confessava-se culpada.
- Qualquer desfalecimento  uma traio, D. Aurora. No acha?
-  o que eu digo, D. Jlia. Se ns fraquejarmos, eles tomam flego e avanam.  no largar, eu sempre disse.
E D. Aurora cobrava alento, mergulhava nos telegramas, tentava perceber o que havia no mundo. Enrugava a testa, enjoada: negava qualquer relao entre
os acontecimentos exteriores e os do Brasil.
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- Estamos longe disso, graas a Deus. Confiava na represso, mas por fim o nmero de acusados chegara a inquiet-la.
- Ora vejam que misria. Quem havia de supor? Tudo bichado.
Nesse ponto uma aflio lhe roera a alma: vivia ali com ela, respirando o mesmo ar e consumindo o montepio, um Carmo corrompido. Realmente no se
comunicavam, quase se desconheciam, mas, quisessem ou no quisessem, eram Carmos, filhos do Major e proprietrios da casa do Meyer.
- Isto  a vergonha da famlia, segredava ao canrio.
A famlia, remota e esfarelada, perdida no interior, servia para desabafos. Jos manchava os cabelos brancos dos avs. Que diabo escrevia ele,
trancado no quarto? Ultimamente os jornais lhe pagavam as bobagens. A idia de que aquilo se vendia aperreava a mulher. Habituara-se a julgar o irmo
uma coisa intil. A inutilidade comeava a mexerse, os papis datilografados significavam dinheiro  e o julgamento se modificava. Jos dividia-se em
duas partes: uma, encolhida e caseira, merecia desprezo; a outra, que se manifestava nas folhas, tornava-se perigosa. D. Aurora precisava combater uma
delas. Lembrava-se da reticncia de D. Jlia: "Seu irmo..." E da profecia do Major: "Tu acabas na cadeia, Jos." Tentava comover-se, achar a sentena
demasiado severa, absolver o desgraado. Talvez o pobre se corrigisse.
Esses bons propsitos esmoreciam. Impossvel deixar criminosos em paz, at eles resolverem
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emendar-se. D. Aurora exprobrava-se, remoa sem descanso o valor dos que tinham recalcado sentimentos e largado em pblico a afirmao cruel e
indispensvel. Se cada um determinasse conservar em casa um foco de infeco, a que se reduziria o movimento?
Em casa. L vinha de novo a casa. Que interesse tinha Jos em entreg-la aos agentes de Moscou? Hem? Que interesse tinha? Se fosse toda dele, seria
loucura, sem dvida, mas enfim ningum podia reclamar; oferecer, porm, de mo beijada, a parte dela, isto no: era safadeza, era ladroeira.
Na ausncia do irmo, entrava-lhe no quarto, farejava-lhe os panos, revistava-lhe os bolsos e as gavetas. Barbaridades: livros em lngua estrangeira,
correspondncia equvoca, uma resma de papel em branco.
- Ora vejam. Que patifarias no vo ser escritas neste papel!
Ento l fora no compreendiam que J. Carmo Gomes era um desordeiro? J. Carmo Gomes. Aquele idiota ganhava importncia: J. Carmo Gomes parecia nome de
gente. Dez anos atrs era apenas Zezinho. Em criana, tinha agentado muito repelo, ouvido muito grito do pai e da irm. Depois se refugiara no
estudo. D. Aurora tentava lembrar-se com simpatia do Zezinho  e via em pensamento um boneco mal-amanhado e triste. Era mais velha que ele, nunca
haviam brincado juntos. Agora Zezinho estava feito J. Carmo Gomes.
"Tu acabas na cadeia, Jos." Que rigor do Major! Se ele no tivesse rogado essa praga ao filho, talvez o infeliz seguisse os bons exemplos.
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O Capito Frana tinha gravados na cabea, como num disco, todos os feitos do Paraguai; o Capito Barros admirava excessivamenteNapoleo. Uma noite os
dois se haviam pegado num debate violento sobre ttica e estratgia, e o Major, para acalmlos, inculcara uma partida de xadrez. Movendo as peas, o
Capito Barros soprava, teimando ainda, querendo que o Frana definisse estratgia.
Zezinho fechava o palet, encolhia-se dentro dele como um cgado, fumava guardando o cigarro na mo em concha. Parecia um menino que fuma escondido. E
se algum lhe falava, estremecia, sorria vexado e dava respostas absurdas. O Capito Barros impacientava-se:
- Endireite o espinhao, criatura. Meta-se na ginstica, aprume-se.
Zezinho no se aprumava e o Major perdia as esperanas. "Tu acabas na cadeia, Jos."
D. Aurora suspirava, esfregando as mos. Nunca um pai devia dizer semelhante coisa. O resultado era que o rapaz se perdera. Provavelmente no
fabricava bombas nem entrava em conflitos: ignorava qumica e faltava-lhe coragem. Na hora do barulho do 3? Regimento estava em casa, dormindo. No
era, pois, combatente: era um desses indivduos encarregados de semear mentiras e ferir costumes respeitveis.
Por que seria que Zezinho se bandeava? Que a canalha mostrasse os dentes, v l; mas era bem duro ver um filho do Major Carmo obedecer a ateus
vagabundos. D. Aurora desejava explicar-lhe que ele estava demente, que no valia a pena sacrificar-se,
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perder a casa. Se os trabalhadores conquistassem o poder, Zezinho e idiotas como ele morreriam de fome ou seriam fuzilados. Agarrara essa opinio num
comcio e estava certa de sempre ter pensado assim.
D. Aurora se compadecia do irmo. Se ele tivesse escutado os conselhos do Capito Barros, seria um homem. No atendera aos amigos, fora entregar-se a
impostores que lhe exploravam a vaidade. Tirassem-lhe a vaidade, e J. Carmo Gomes se tornaria Zezinho, um menino tolo que no sabia servir-se das
mos, pisava nos buracos e necessitava castigo. Sem dvida, necessitava castigo para se comportar direito, no se cortar nas facas que pegava, no
correr para baixo dos automveis.
Agora estava crescido  e conservava-se desazado e imprudente, buscando infelicidades. Com certeza o fuzilariam, se o comunismo levantasse a cabea.
Coitado. Grande, senhor do seu nariz, no tinha quem o defendesse, um pai que lhe puxasse as orelhas e lhe desse cascudos: "Senta a, cria juzo."
Trabalhava demais  e seria fuzilado quando no precisassem dele. J. Carmo Gomes, a irm, o Capito Frana e o Capito Barros seriam fuzilados. E D.
Aurora se condoa de todos. Ento era regular deixar-se um louco em liberdade, queimando, matando? J. Carmo Gomes no queimava nem matava, mas vivia a
elogiar incendirios e assassinos. Elogiava de boa-f. Isto no lhe diminua a culpa. Se ele tivesse m inteno, talvez uns restos de bondade lhe
iluminassem a alma; certo de que procedia bem, no recuaria.
E D. Aurora se convencera de que o nico meio
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de proteger o irmo seria guard-lo a ferrolho e chave. Longos dias essa idia lhe rondara o esprito. As razes de ordem econmica foram afastadas
com indignao: intolervel pensar em dinheiro. Era tambm verdade que ela gostava de Zezinho. No tinham tido origem no mesmo ventre? Restava, pois,
aquele motivo, a que D. Aurora se pegava com fora, receosa de que ele se desfizesse. O moo ficaria bem na cadeia. Ausente do mundo e das publicaes
abominveis, afugentaria pensamentos maus.
Jos devia ser preso. E deixavam-no solto, envenenando e envenenando-se. Por qu? Talvez o poupassem por ele ter uma irm no Sigma. D. Aurora
arreliava-se, queria gritar que recusava essa condescendncia, envergonhava-se quando lhe falavam em pessoas de considerao detidas por suspeitas.
 Por que no h de ser assim? balbuciava com entusiasmo frouxo. Por que s encanar os pequenos?
Atrapalhava-se. Alguns olhares ambguos pareciam-lhe censuras. "Seu irmo..." D. Jlia deixara a frase incompleta, mas via-se perfeitamente que tinha
o rapaz em m conta. Provavelmente andavam por a a cochichar que D. Aurora, uma oportunista, vestira a camisa verde por manha, acendia uma vela a
Deus e outra ao diabo. Ningum acreditava na sinceridade dela. Uma oportunista. Quando a gangorra virasse e a gente da esquerda serrasse de cima, J.
Carmo Gomes a defenderia. Era o que pensavam, certamente. E D. Aurora no tinha sossego. Dedicava-se ao partido, recebia tarefas pesadas, mas no
estava satisfeita. Em todas as conversas perce-
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bia remoques. Badalava que no conhecia parentes, que no se responsabilizava por ningum. Perturbada, os olhos baixos, procedia como quem se
desculpa. Abria-se s vezes com D. Jlia, chegava quase a pedir-lhe que fizesse a delao. A professora ouviaa com reserva, atenta, o nariz longo, os
beios finos apertados, as plpebras cadas. D. Aurora notavalhe nos modos uma reprovao contnua. E afastavase, impelida para vrias direes.
Levantara-se um dia branca, machucada, zonza, olheiras enormes, um embrulho no estmago. Vestindo-se lenta, esquecendo peas de roupa, temendo
qualquer rumor, padecia muito. Necessrio salvar o irmo. Sara de casa e fora denunci-lo  polcia.
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Dois dedos

DR. SILVEIRA atravessou a antecmara e aproximou-se do reposteiro. O contnuo velho barrou-lhe a passagem, quis exigir carto de visita, mas vendo-lhe
o rosto, a mo que se agitava como afastando uma coisa importuna, curvou-se, entreabriu o pano verde e foi encolher-se num vo de janela:
- Deve ser troo na poltica. Dr. Silveira entrou no gabinete do Governador. Entrou de corao leve, como se pisasse em terreno conhecido, os braos
alongados para um abrao. Um abrao, perfeitamente. O homem que ali estava fora vizinho dele, colega de escola primria, colega de liceu, amigo
ntimo, unha com carne. A mulher de Dr. Silveira tinha dito:
- Visita sem jeito. Esquea-se disso. Poltica!
E ele respondera: -
 Que poltica! Eu me importo com poltica?  que fomos criados juntos. Assim, olhe.
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Juntava o mdio e o indicador da mo direita, de modo que se conservassem em posio horizontal, movia-os ligeiramente. Nenhum dos dedos ultrapassava
o outro.
- Assim. Estirava o indicador e contraa o mdio, para que ficassem do mesmo tamanho. Infelizmente no tinham ficado. Um deles estudara Direito,
entrara em combinaes, trepara, sara Governador; o outro, mais curto, era mdico de arrabalde, com diminuta clientela e sem automvel. Por isso a
mulher dissera:
- No gosto de misturas. Visita sem jeito. Cada macaco no seu galho.
- Que galho! retrucara Dr. Silveira. ramos dois irmos. Estudvamos juntos, vivamos juntos. Vou. Se no fosse, o homem havia de reparar. Um irmo.
Escovara e vestira a roupa menos batida. Isso de roupa era tolice, mas afinal fazia uma eternidade que no via o amigo, o irmo, unha com carne.
- Assim. Tomara um automvel. Chegara ao Palcio, onde nunca havia posto os ps, atravessara o hall, hesitando. O gabinete do Governador seria 
direita ou  esquerda? Perguntas cochichadas a funcionrios carrancudos.
O amigo, o irmo, havia sido reprovado em qumica vinte anos antes, enganchara-se no tomo. Agora dominava aquilo tudo, e o tomo era intil.
Informado por um guarda, Dr. Silveira transpusera uns metros de corredor sombrio, entrara na
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antecmara, chegara-se ao reposteiro, afastara o contnuo velho, que se encolhera num vo de janela:
- Deve ser troo. Bem. Dr. Silveira estava no gabinete, livre de incertezas e das informaes daquelas caras antipticas. Avanou dois passos, os
braos estirados como para abraar algum, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veiolhe ento a idia de que
escorregar era inconveniente. No devia escorregar. Pisando no paraleleppedo, caminhava direito. Mas ali, na madeira envernizada, a segurana
desaparecia. Ccegas nas solas dos ps, suor nas solas dos ps. Um escorrego  confisso de inferioridade.
Aprumou-se, estendeu os olhos em redor, e foi a que notou o lugar onde se achava. No salo, fechado, o que lhe provocou a ateno foi a mesa de
tamanho absurdo, entre cadeiras de altura absurda. Teve a impresso extravagante de que a mesa era maior que o salo. Nunca havia entrado em
gabinetes, mas acostumara-se a julg-los pequenos. E o salo era enorme, cercado de vidros por um lado, de livros pelo outro. Aquilo tinha aparncia
de biblioteca pblica.
De relance percebeu uma fileira de volumes taludos, bem encadernados, e entristeceu. Devia ser um dicionrio monstruoso, uma enciclopdia, qualquer
coisa assim, para contos de ris. Engano: era simplesmente uma coleo do Dirio Oficial. Mas isto produzia efeito extraordinrio, e Dr. Silveira
imaginou ali grande soma de cincia. Deu um passo tmido no soalho, temendo escorregar de novo. Nenhuma seguran-
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Os braos, que se arqueavam para um abrao, caram desajeitados ao longo do corpo meio corcunda.
Desviando-se das prateleiras onde se enfileiravam as dezenas de volumes grossos, os olhos pregaram-se no cho e assustaram-se com o brilho excessivo
das tbuas. Insensatez fazer o pavimento das casas assim lustroso e escorregadio. Arriscou algumas passadas, convencido de que o observavam e
censuravam. Certamente havia ali pessoas, talvez pessoas conhecidas, que ele se esquecera de cumprimentar. Notara apenas a mesa enorme, as cadeiras
altas demais, as vidraas e os livros, especialmente a coleo encadernada a couro, com letras douradas nos lombos. Teve raiva da timidez que o
amarrava, ergueu a cabea e quis pisar firme. Uma criana, um matuto, encabulado.

Examinou a sala. Na extremidade da mesa, um homenzinho escrevendo. No momento em que Dr. Silveira se certificava disto, a personagem soltou a pena,
mostrou uns olhos empapuados e deixou escapar um gesto de repugnncia. Contrariado, sem dvida, interrompido no trabalho maador.
Dr. Silveira arrependeu-se de no ter ouvido o conselho da mulher. Que entendia ele de poltica? Devia ter ido visitar os doentes do arrabalde.
Estupidez aproximar-se de figures.
O movimento de repugnncia do homem que escrevia na cabea da mesa durara um segundo, transformara-se num sorriso de resignao. O antigo camarada
tinha aquele sorriso, mas no tinha o gesto de aborrecimento nem os olhos empapuados. Que mudana! E em pouco tempo.
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Na verdade fazia pouco tempo que eles estuda vam juntos no quintal de Silveira pai, debaixo das mangueiras, deitados nas folhas secas. As meninas
danavam e  cantavam. Uma tia do outro vinha vigilos, com culos e um romance. No vigiava nada, mas a presena dela, dos culos e do romance era um
hbito necessrio. Parecia que aquilo tinha sido na vspera. A tia idosa, com o nariz em cima do livro; as meninas danando e cantando; eles deitados
nas folhas secas, decorando os pontos.
O companheiro fora reprovado em qumica. Rapaz inteligente, mas perturbara-se, atrapalhara-se no tomo. Chorara, jurara vingar-se do Dr. Guedes,
inimigo do pai dele. Injustia, no valia a pena estudar. Perseguio a um excelente aluno, bem comportado, avesso a badernas. Dr. Guedes tinha feito
canalhice. Para que servia o tomo a quem ia ser bacharel? Vinte anos. Em vinte anos o mundo d muitas voltas, mas realmente parecia que aquilo
acontecera na vspera.
- Como a gente muda depressa! O antigo colega no tinha os olhos empapuados nem o gesto de aborrecimento. Era um menino amvel e risonho. Por isso
ele o animara, consolara, citara exemplos de homens importantes que haviam sido reprovados. Tolice amofinar-se por causa de uma safadeza do Dr.
Guedes.
Vinte anos. Agora tudo era diferente. O salo enorme, a mesa enorme. Dr. Silveira estava numa extremidade da mesa e via na outra os olhos empapuados
que se fixavam nele, tranqilos. O gesto de impacincia desaparecera, o sorriso desaparecera. O
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que havia eram os olhos cansados que no o reconheciam. Estaria transformado a ponto de no ser reconhecido? Devia estar. A calva, a corcunda, a
palidez. Era outro, certamente. Moo ainda. Mas aquela vida agarrado aos defuntos e aos doentes inutilizava um homem. Velho. Ambos velhos. A calva, a
corcunda, a palidez; os olhos empapuados, frios, indiferentes. Se encontrasse o amigo na rua, passaria distrado, com o pensamento no hospital no
necrotrio, na mesa de operaes. Passaria distrado, lembrando-se de uma artria que havia sido cortada. Essas coisas tinham grande importncia para
ele e nada significavam para o homem que escrevia, ali a alguns metros. Que estaria escrevendo? Telegrama ao Ministro do Interior, ao Ministro da
Agricultura. Dr. Silveira no saberia redigir telegramas a esses ministros. Podia ser que aquilo fosse apenas um carto a chefe poltico da roa. Dr.
Silveira no seria capaz de redigir sequer um desses cartes vagabundos.
Avanou um passo para contornar a mesa e chegar-se ao homem pelo lado direito; recuou, avanou pelo lado esquerdo  e permaneceu no mesmo lugar.
Indeciso estpida. Suor nas palmas das mos, suor nas solas dos ps. Felizmente a mesa estava sobre um tapete e no havia o receio de escorregar.
Podia aproximar-se andando com segurana, mas os olhos empapuados, a mo esmorecida no papel, uma interrogao no rosto parado, davam-lhe vergonha e
tremuras. Quis retroceder, abandonar a sala triste e silenciosa; olhou para trs, encontrou os volumes do Dirio Oficial, terrveis, com letras
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douradas nos lombos de couro. No conseguiria adquirir uma coleo assim rica, mesmo a prestaes. Que fazia num salo que tinha livros to ricos? Queria
voltar,  atravessar o espao que o separava da porta, levantar o reposteiro, fugir do contnuo, do guarda, alcanar a rua. Mas ningum entra numa sala
para sair correndo como doido. Difcil escapulir-se, deixar os olhos empapuados que tentavam reco nhec-lo. Estava cheio de constrangimento e notava
que produzia constrangimento a um desconhecido perturbado no seu trabalho: telegrama ou carto, a ministro ou a prefeito do interior. Esse trabalho
estranho confundia-o. Difcil escrever o carto ao prefeito.
Compreendeu que havia procedido mal no dando o carto de visita ao contnuo. Cultivavam ali uma etiqueta, costumes bestas que ele ignorava e no
procurara conhecer, porque do outro lado do reposteiro se achava um homem que fora para ele unha com carne. Dois dedos, assim, juntos, movendo-se no
mesmo nvel e quase do mesmo comprimento. A mulher no acreditara na histria dos dedos e aconselhara-o a ficar em casa de pijama, lendo revistas de
medicina. Revistas, naturalmente: impossvel obter volumes grossos como aqueles encadernados a couro, com letras douradas nos dorsos.
Criatura inferior. Sem dvida, inferior. No avanava nem recuava. Iria aproximar-se pela direita ou pela esquerda?
Os pontos do liceu eram cacetes.  noite Silveira pai interrogava-os em geografia e histria,
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queria saber se eles aproveitavam o tempo. As meninas danavam e cantavam, fazendo rodas. Onde estariam elas? Longe, casadas, mortas, diferentes,
outras criaturas que no danavam nem cantavam.
O antigo companheiro tambm era outro, um dedo amputado. Dr. Silveira desejava apenas aproximar-se, dizer algumas palavras. As palavras, estudadas,
sumiam-se. Como se chegaria? Pela direita ou pela esquerda? Era melhor fugir, sair do tapete, pisar no soalho lustroso, arriscar-se a escorregar
novamente. Suava. Impossvel evitar os olhos que no o reconheciam.
Agora tinha medo de que o homem supusesse que ele ia chorar, pedir emprego. No ia. Imaginava fazer o gesto de virar os bolsos pelo avesso, mostrar
que no precisava mendigar os cobres mesquinhos do imposto. Vivia satisfeito. Visitava doentes pobres, trabalhava no hospital, assinava as revistas
indispensveis. Tranqilo. No ia pedir. Nenhuma ambio, poucas necessidades. Queria abraar o amigo, felicitlo, conversar uns minutos, lembrar os
tempos velhos, os pontos decorados sob as mangueiras, as meninas, a senhora idosa. No ia pedir. A roupa estava realmente safada, os sapatos cambavam.
E a corcunda, a palidez, a magreza, o modo encolhido. Mas tinha os doentes do arrabalde, que s acreditavam nele, o hospital, que dava ordenado magro
e trabalho excessivo, a mulher econmica. Sentiria se o privassem do hospital. Muitos casos interessantes.
Uma visita de cortesia. A roupa era de mendigo. No tinha pensado na roupa ao sair de casa. A gola suja, a gravata enrolada como corda.
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desleixado. Nunca prestava ateno  mulher, que o importunava diariamente: "Feche esse palet." No fechava. E arrependia-se, ali na ponta da mesa,
mostrando a camisa,  que entufava na barriga.
O homem dos olhos empapuados julgava-o um pulha, um pedinte de emprego, uma dessas criaturas que aparecem nas audincias pblicas e levam cartas de
recomendao. Por isso estava com o rosto parado, pronto a murmurar uma recusa seca, defendendo o osso rodo. Dr. Silveira no precisava do osso.
Queria conversar uns minutos, lembrar o tempo de liceu, a senhora velha que lia o romance, as meninas, os pontos, o tomo, as amolaes de Silveira
pai. Impossvel falar sobre essas coisas. Tinham sido dois dedos, assim, mas estavam separados. Como vencer a separao, a mesa enorme que se
interpunha entre eles, rodeada de cadeiras altas? Iria pela direita ou pela esquerda? Dr. Silveira afastava-se para um lado, afastava-se para outro
lado, e permanecia no mesmo lugar. O homem dos olhos empapuados no o reconhecia. Reconhecia-o. Talvez no o reconhecesse. Um antigo condiscpulo, um
sujeito encontrado em qualquer parte. Amigo, certamente, desses que a gente sada com indiferena: "Ol! Como vai?" Procurava lembrar-se do nome de
Dr. Silveira. Colega de escola primria, de liceu ou de academia. Tentava recordarse, a pena suspensa, o telegrama interrompido. Visita importuna,
tempo perdido.
Esses tipos tm as horas contadas, tantos minutos para isto, tantos para aquilo. No se ocupam em conversas fiadas. Negcios srios, pblicos. Dr.
Silveira sentia-
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se amarrado, preso ao tapete, junto a uma cadeira alta que tinha uma guia sobre o espaldar. As encadernaes no lhe saam da cabea. Muitos livros,
aparncia de biblioteca. Volumes grossos, com letras douradas nos lombos.
Recordaes to minguadas! A senhora velha folheando o romance, as crianas danando e cantando, as mangueiras, os dois ouvindo as explicaes de
Silveira pai. Ele e aquele indivduo que se aborrecia a alguns metros de distncia, a pena suspensa, o telegrama interrompido, uma interrogao vaga
nos olhos empapuados: "Ol! Como vai?"
Estupidez lembrar-se do passado intil. A mulher tinha razo. Acabar depressa com aquilo, voltar ao subrbio, vestir pijama, calar chinelos, ler as
revistas indispensveis.
Avanou. No sabia se avanava pela direita ou pela esquerda. Completamente atordoado. Acabar depressa com aquilo. A mulher tinha razo.
- Ol! Como vai? perguntou o homem de olhos empapuados.
Dr. Silveira sentou-se numa das cadeiras altas demais, comeou a gaguejar. Cadeiras to altas! Esfregou as mos. E pediu o emprego. Uma sinecura, um
gancho na Sade Pblica. No se referiu aos acontecimentos antigos. Necessidade, pobreza, tempos duros. Esfregava as mos encabulado, mostrando a
esmeralda. Um emprego na Sade Pblica.
- Est bem, disse lentamente o homem de olhos empapuados. Vamos ver. Aparea.
E encostou a pena no papel, manifestou a inteno de continuar o telegrama.
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A testemunha

Como a audincia ainda no tinha comeado, Gouveia conversou um instante com o oficial de justia, debruou-se depois  varanda, olhou sem interesse
aquele pedao de rua quase deserto. Um conhecido passou l embaixo, a limousine do Governador virou a esquina, um relgio da vizinhana bateu dez
horas. Quis chamar o conhecido, pedir uma informao, mas distraiu-se com o automvel e com as pancadas do relgio.
- Tudo  toa, desorganizado.
Tinha recebido intimao para comparecer s dez horas. Chegara momentos antes. Apenas o oficial de justia e um servente negro na sala suja de escarro
e lixo. Porcaria, falta de ordem. Fumou um cigarro, contou os urubus que maculavam as nuvens, pensou no acontecimento desagradvel em que pretendiam
met-lo. Ignorava quase tudo, certamente ia embrulhar-se.
- Ratoeira.
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Voltou-se, arriscou uns passos tmidos no soalho carunchoso que o servente preto varria. Dois funcionrios entraram pesados, sobraando pastas.
- Mas que diabo tenho eu com isto? rosnou Gouveia irritado, aventurando-se a dar urna patada nas tbuas gastas e oscilantes.
Foi encostar-se novamente  varanda, amofinado. Uma indiscrio no caf  e ali estava  espera da justia, mastigando frases do depoimento cacete que
ia prestar. Queria livrar-se da chateao, entrar em casa, retomar o trabalho comeado na noite da encrenca. Lembrou-se com um bocejo da hora agitada.
Escrevia umas coisas que prometiam gasto de papel. De repente a mulher, perturbada, abrira a porta da saleta:
- Acho que mataram o vizinho aqui da esquerda.
Interrompera um perodo, alheio  novidade. Como ela se repetisse, erguera-se, chegara  janela, vira ajuntamento na calada, um carro e a cabea do
chefe de polcia, ouvira lamentaes e gritos. No dia seguinte lera o crime nos jornais.
Entreteve-se com os bondes, as carroas e os letreiros dos anncios, mas o pensamento fixou-se no livro comprado na vspera. Se soubesse que ia
agentar semelhante maada, teria trazido o volume, estaria lendo, riscando as folhas a lpis.
- Estupidez.
Afastou o depoimento que se esboava, quase todo baseado em noticirios, porque realmente s percebera a multido, barulho, um carro e a frontaria do
chefe de polcia. Fumou outros cigarros. Sim
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senhor, ali  disposio da justia, igual a um preso. Tentou marchar com segurana no soalho antigo e bichado, que balanava como um navio. Ouviu
passos na escada, parou, cumprimentou o Juiz de Direito, o Promotor e alguns advogados. Mas no se aproximou do Dr. Pinheiro, um inimigo. Sem motivo,
Dr. Pinheiro comeara a torcer-lhe o focinho. Prejuzo pequeno, um caranguejo morto. Dr. Pinheiro era um caranguejo. Tinham ido contar-lhe mentiras,
provavelmente envenen-lo contra uma pessoa que no lhe fizera mal.
O Juiz consultou o relgio, sentaram-se todos em redor da grande mesa poeirenta, uma escolta chegou com dois acusados e a audincia foi aberta.
Gouveia, disposto a falar pouco, para no cair em contradies e no perder o almoo, pressentiu que o interrogatrio ia estirar-se. Logo no princpio
houve uma srie de formalidades agourentas: os advogados folheavam autos e rabiscavam notas, o escrivo batia no teclado da mquina. Gouveia
estranhava o cerimonial, remoa o depoimento e enxergava nele pontos fracos. O que vira nos jornais no combinava com as observaes da mulher, havia
na histria incongruncias e passagens obscuras. Quebrava a cabea procurando harmonizar as duas verses; como isto no era possvel, resolveu sapecar
uma delas.
Doeu-lhe a conscincia. E o julgamento? Sossegou. Teatro, palhaada, tudo palhaada. Besteira amolar-se, diria meia dzia de palavras inteis, o
julgamento no ganharia nem perderia nada.
Comeou o negcio. O fura-bolo e o
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mata-piolho de Dr. Pinheiro deram no ar um piparote, reduziram Gouveia  condio de inseto, quiseram derrub-lo da cadeira onde ele se acomodava mal,
ora numa ndega, ora noutra. O inseto levantou os ombros, indignado. (Provocao tola: Dr. Pinheiro era um caranguejo.) Torceu a cara, fungou, l foi
escorrendo que se chamava Gouveia, trabalhava na imprensa, tinha trinta anos, sabia ler e escrever. As perguntas desnecessrias constrangiam-no,
amesquinhavam-no. Atrapalhava-se e tinha ccegas na garganta, desejo de rir.
Falavam-lhe do crime agora, mas com palavras antigas, algumas evidentemente mal empregadas, outras de significao desconhecida. Hesitou, e o juiz
recomendou-lhe tento. Assustou-se, resolveu bridar a lngua. Provavelmente dissera no quando era preciso dizer sim, e por isso lhe avivavam a
ateno.
Bem. O promotor se remexia, um sujeito razovel que bocejou perguntas fceis e passou Gouveia s unhas dos advogados. O primeiro tossiu, grunhiu,
mostrou as gengivas num sorriso piedoso e se declarou satisfeito. O segundo usou vrias expresses pedantes, E Gouveia se atordoou, teve a impresso
de que o achatavam, machucavam numa prensa. Acuado entre o sorriso do primeiro bacharel e o pedantismo do segundo, julgou-se um idiota, meteu os ps
pelas mos, disparatou, comendo frases, indiferente ao Juiz, que se arreliava e coava o queixo.
A Dr. Pinheiro entrou na dana: o volume dele aumentou, o peito comeou a inchar, inchar, um papo de peru, um fole que engrossava, recolhendo ar
suficiente para discursos. Dr. Pinheiro ficou as-
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sim um minuto, engolindo vento, direitinho um camaleo. Em seguida a voz rolou sonora, gorgolejada, cheia de adjetivos compridos. Era apenas uma
pergunta, mas to enfeitada que se perdia, como essas cruzes de beira de estrada, invisveis sob fitas e flores de papel. Gouveia sentiu um choque e
vergou o cachao; depois se aprumou com lentido, examinou os circunstantes, convencido de que ia ver surpresa nos rostos. Como todos se conservassem
tranqilos, julgou ter ouvido mal, encolheu-se e esperou a repetio da pergunta. Quando esta veio, enftica e ondulosa, experimentou vivo
constrangimento. Ia jurar que lhe tinham dito uma poro de asneiras, mas as carrancas srias desnortearam-no. Achou-as duras como pau, sentiu um
arrepio e deu para tremer. Ouvira duas vezes as mesmas frases, vira uns cabelos derramados, um papo enorme  e no compreendera nada, ali estava
simulando ateno, procurando nas caras, no teto, nos mveis, no forro da mesa, alguma idia. Certificou-se de que em roda o achavam imbecil, teve um
medo terrvel do advogado, viu-o sob a forma de animal feroz, bicho primitivo, qualquer coisa semelhante a um caranguejo monstruoso. Tentou arrumar
evasivas, perodos vagos, mas a voz esmoreceu  e foi para ele que todos olharam espantados. Isto aperreou-o. Escutavam naturalmente Dr. Pinheiro e
admiravamse porque ele Gouveia se calava. Teve um rompante interior. Selvagens, cambada de brutos. No ligava importncia a nenhum. Viu que as
plpebras moles do escrivo se cerravam e os dedos amarelos descansavam no teclado da mquina.
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- Posso fumar?
Obteve permisso, remexeu os bolsos, procurando cigarros. Bem. Agora fumava, pensando no livro comprado na vspera e em animais primitivos. Atravs da
nuvem de fumaa, a figura de Dr. Pinheiro crescia e arredondava-se. Provavelmente tinham vivido em pocas remotas caranguejos medonhos de cores
venenosas.
Nesse ponto o caranguejo levantou a pata e largou a pergunta pela terceira vez.
- Perfeitamente, balbuciou Gouveia.
E despejou uma resposta ambgua, que o Juiz complicou dando-lhe redao extraordinria.
- No  precisamente isso, murmurou Gouveia.
Insinuou uma alterao, que se fez, mas completamente detur ada.
- Oh! Quis protestar, faltou-lhe coragem.
Aquele procedimento parecia-lhe irregular e perigoso. Falava como toda a gente, mas o Juiz lhe traduzia a prosa vulgar numa linguagem arcaica, pomposa
e errada. O interrogatrio se prolongou, arrastado, rancoroso - e Gouveia, esforando-se por diminuir aquele desastre, cada vez mais se enterrava.
Tinha as mos midas e as orelhas pegando fogo, a vista escurecia, um nevoeiro ocultava as figuras. Perdia o flego, estava-se afogando, mexia-se com
desespero. Sabia que tudo era intil, que as declaraes se modificavam, se redigiam em lngua desconhecida, mas tinha escorregado e no podia
deter-se. Um boneco nas mos de Dr. Pinheiro.
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Animou-se, zangou-se, afirmou que aquilo era emboscada. Odiou o bacharel, desejou arranhar-lhe a cara. Acendeu outro cigarro, encheu os pulmes, temeu
soltar uma praga. Sabia l nada? Tinha lido os jornais e ouvido algumas frases da mulher. Safadeza virem perguntar-lhe como procediam os indivduos
que ali estavam, um homem gordo bem vestido, provavelmente rico, e um preto com aparncia de macaco. Procurou estabelecer relao entre os dois, mas a
linha com que os cosia de instante a instante se quebrava, e as peas aproximavam-se, afastavam-se. Pensou em cemitrios e em fogosftuos.
Refletiu naquela associao. O homem gordo com certeza tinha casa grande e automvel; o preto dormia debaixo das pontes, passava dias em jejum.
Examinou-os, curioso. Por que se haviam lembrado de cham-lo para depor? Involuntariamente observava as duas caras fechadas, Dr. Pinheiro
empurrava-lhe para dentro da cabea aqueles seres de outro mundo, confusos e vazios. O homem gordo franzia a testa, apertava os cantos da boca plida;
o negro pendurava o beio grosso, parecia mastigar qualquer coisa e encarquilhava as plpebras. Tipos diferentes, de profisses diferentes: operaes
comerciais ou procura de objetos nos monturos. Um encontro na vida, uma topada num cadver  depois se haviam apartado, cada qual seguia o seu
caminho.
Gouveia passeava os bugalhos pelas cadeiras, gaguejava sons que rolavam na mquina de escrever, pensava na reportagem dos jornais, em certos
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pormenores do crime repetidos com insistncia. Isto lhe dava a impresso de que alguns pedaos dos acusados se iluminavam fortemente e o resto ficava
na sombra. Desviava-se dos pontos claros, tentava descobrir o que escondia nas manchas escuras. Quarenta anos atrs o homem gordo vestia uma roupa de
veludo, ia  escola seguido pela criada, aos domingos brincava nos jardins pblicos, espiava os canteiros, as guas, as rvores. Caminhando, acertava
o passo, como um cavalo. E se se aproximava de um moleque de beio cado, mame repreendia-o, afastava-o para ele no se contaminar nem sujar a roupa.
Um dia apanhava doena grave, que fazia papai fraquejar, roer as unhas, rezar escondido e adular o mdico, temendo a conta das visitas. Aprumava-se;
ia para cima, endurecia, era aprovado no Liceu, freqentava penses de mulheres, tomava pileques, escolhia meio de vida honesto, casava. Longe, um
negro cambaio e beiudo curtia fome, dormia no cho, furtava bagatelas e levava recados s prostitutas. Quando se avizinhava do homem gordo,
encslhia-se e resmungava um palavro.
- Como diabo se juntaram eles?
O Juiz cochilava, os advogados entorpecidos no calor bocejavam, o promotor riscava o mata-borro, o tique-taque da mquina enfraquecia.
- Naturalmente, disse Gouveia. - Naturalmente, bateram no teclado os dedos moles.
Essa resposta a uma pergunta no ouvida saiu direita: Dr. Pinheiro sobressaltou-se e o Promotor fez um gesto de aprovao. Gouveia se distanciava
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dali. A mulher percebera gritos na casa vizinha, gente se comprimira na calada, um automvel roncara e a careca do chefe de polcia aparecera. O
sangue do homem assassinado formava um riachinho que desaguava na sarjeta, a multido assanhada zumbia, o carro do chefe de polcia buzinava, um negro
de pernas tortas e beio cado passava entre soldados. Tudo isso estava nos autos, mas era como histria velha, truncada, escrita em lngua morta. Os
perodos arrastavam-se, frios e mastigados. Um crime vago, criaturas indefinidas, incompletas, ali paradas em torno da mesa. Provavelmente iam
separar-se. O homem gordo seria absolvido e receberia telegramas de felicitaes. Naturalmente. Ensinaria boas maneiras aos filhos, brigaria com a
mulher, sustentaria uma rapariga bonita, comentaria os jornais, seguro. Naturalmente. O preto seria condenado a alguns anos de priso  e o advogado
no apelaria.
- Trabalho perdido.
A mquina calou-se, dobraram-se as pastas, o Juiz levantou-se. Gouveia espreguiou-se, agarrou o chapu, esgueirou-se para a escada sem se despedir e
chegou  rua. Um transeunte pisou-lhe um calo. Bem, estava livre das mentiras e das ciladas. Procurou um relgio. Quatro horas. Tempo perdido. At
quatro da tarde sem almoar. Estava besta, cansado, falando alto. Dr. Pinheiro, que tinha sido caranguejo, virava jibia, apertava-o nos anis fofos,
puxava-o para um lado e para outro, enroscavase na sombra, bicho frio e elstico. Gouveia arrepiava-se, engulhava, desconjuntava-se. Parecialhe que
ainda marchava sobre as tbuas carunchosas
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e oscilantes, desejava que lhe pisassem novamente os ps com fora.
- Perdo, perdo.
- Ora essa! No tem de qu.
Dentro de poucos meses o homem gordo caminharia assim na calada, vermelho, suando, machucando os calos dos transeuntes. Pesado, batendo na pedra a
sola do sapato, ocupando espao excessivo, cumprimentaria de leve Dr. Pinheiro  e Dr. Pinheiro atravessaria a rua para apertar-lhe a mo. O preto
amacacado, num cubculo sujo, comeria bia nojenta, mofaria muitos anos na esteira esfarrapada cheia de percevejos. O capelo da cadeia lhe ensinaria
rezas e tentaria com pacincia salvar-lhe a alma.
- Naturalmente.
Quatro horas. Gouveia encaminhou-se a um restaurante. Dia perdido. Alargou o passo.
- Dentro de alguns anos... - Interrompeu-se, agora precisava comer.
O sol queimava-lhe as costas, a sala escura de soalho rodo estava distante, aqueles tipos esquisitos desmaiavam, inconsistentes. Lembrou-se da
inglesa do sobrado, dos lindos olhos da inglesa, do vaso de flores da inglesa. Pensou em Seu Fernandes, que todas as manhs lhe pedia o jornal
emprestado, funcionrio mido, esperantista, inimigo do Governo. Havia tambm a compra de uns mveis, transao vrias vezes adiada porque os
dinheiros eram escassos.
Andava de cabea baixa, o espinhao curvo. De repente esbarrou e aprumou-se diante de um homem
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gordo, vermelho, de ruga na testa e pregas nos cantos da boca. A amolao da audincia entrou-lhe no esprito  o tique-taque da mquina, o chiar dos
papis, as frases antiquadas, os cochilos, o caranguejo enorme levantando a pata enorme. Empalideceu e encostou-se a um muro, tremendo, o corao aos
baques e o estmago embrulhado.
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Cimes

O DIA em que D. Zulmira soube que o marido se entendia com uma criatura do Mangue foi uma aperreao. A princpio no quis acreditar e exigiu provas,
depois teve dvidas, ficou meio convencida, levantou-se da mesa antes do caf e dirigiu  informante um olhar assassino. Entrou no quarto com uma
rabanada, rasgou a saia no ferrolho da porta e aplicou duas chineladas no pequeno Moacir, que, sossegado num canto, manejava bonecas:
- Toma, safadinho, molengo. Tu s fmea para andares com bonecas? Manca.
O pequeno Moacir entalou-se, indignado, e saiu jurando vingar-se. A primeira idia que lhe veio foi derramar querosene na roupa da cama e riscar um
fsforo em cima. Refletindo, achou o projeto irrealizvel, porque na casa no havia querosene, e resolveu contar ao pai que tinha visto a me
conversar na praia com um rapaz.
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Nesse ponto D. Zulmira sacudia furiosamente as gavetas, procurando papis e cheirando panos.
- No quebre tudo no, disse a hospedeira do outro lado da porta.
D. Zulmira considerou . que os mveis eram alheios, baixou a pancada e findou a investigao com menos barulho. No encontrando sinais
comprometedores, deixou cartas e camisas misturadas sobre a mesa, encostou-se  janela e ps-se a olhar o jardim, dando ligeiras patadas nervosas no
soalho.
- Venha tomar caf, gritou da sala de jantar a proprietria da penso.
D. Zulmira resmungou baixinho uma praga bastante cabeluda. Aborrecia palavres na linguagem escrita. Ainda na vspera, diante de amigas, condenara
severamente um romance moderno cheio de obscenidades. Mas gostava de rosnar essas expresses enrgicas. s vezes, em momentos de abandono completo,
chegava a utiliz-las em voz alta  e isto lhe dava enorme prazer. A palavra indecente pronunciada para no ser ouvida trouxe-lhe ao esprito a
recordao de cenas ntimas, que afastou irada, agitando a cabea e batendo mais fortemente com o calcanhar na tbua. Tinha duas pequenas rugas
verticais entre as sobrancelhas, os cantos da boca repuxados, excessivamente amarelos os pontos do rosto onde no havia tinta.
No meio da zanga, operava-se no interior de D. Zulmira uma tremenda confuso. O que mais a incomodava eram os brinquedos do pequeno Moacir. Retirou-se
da janela e entrou a passear no quarto, atirando grandes pernadas em vrias direes.
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Como numa das viagens encontrasse o caminho obstrudo pelas bonecas, espalhou-as com um pontap:
- Manca, moleiro.
Olhou a fotografia do menino e comeou a distinguir no rostinho bochechudo as feies do pai. Lembrou-se do noivado chocho, do enjo na gestao, do
parto difcil. Sentia-se gravemente ofendida pelos dois. Soltou um longo suspiro, voltou a fotografia para a parede e cravou os olhos no cho. As
bonecas tinham-se escondido debaixo dos mveis, o que havia no soalho eram algumas camisas, lenos e cartas. O corao de D. Zulmira engrossou muito,
cheio de veneno, e o bicho que o mordia tinha a princpio a figura do pequeno Moacir, tornou-se depois um ente hermafrodita, com pedaos de homem e
pedaos de mulher do Mangue.
- Ai, ai.
Novo suspiro elevou o seio volumoso de D. Zulmira, obrigou-a a desapertar o vestido.
- Ai, ai.
O ser hermafrodita evaporou-se, e ela enxergou o sujeito barbudo e chato com quem vivia. Como se julgava muito superior ao companheiro, sentia-se
humilhada ao descobrir que semelhante indivduo a enganava. No sabia direito porque era superior, mas era, sempre se imaginara superior, sem
anlises.
Pensou em namorados antigos, em alguns recentes. Se um deles fizesse aquilo, bem, estava certo. Mas o homem barbudo sempre fora inofensivo. Ela se
divertia em experiment-lo praticando leviandades. O marido no se alterava: comia com o
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rosto em cima do prato, andava de cabea baixa, tranqilo, sem opinio.
Feitas essas ligeiras sondagens, D. Zulmira recolhia-se, prudente e honesta. Pecava muito por pensamento, e por palavras tambm, mas os seus atos maus
eram insignificncias, nem valia a pena record-los. Avanava um pouco, depois ia recuando, refreava os desejos que tinha de descarrilar. s vezes
perdia o sono, entrava pela noite fantasiando ruindades. O marido acordava, via-a de olho arregalado, como um gato:
- Durma, filha de Deus.
E adormecia. Ela virava-se na cama, tapava as orelhas, para que os roncos e a cara cabeluda no lhe estragassem o sonho. Coitado. To gordo, to
intil! Findos os devaneios complicados, D. Zulmira entrava nos eixos, tornava-se a melhor das esposas e, com um vago desprezo a que se juntava algum
remorso, enternecia-se por aquela gordura e aquela inutilidade.
Ora, a notcia de que a inutilidade e a gordura se haviam transferido para junto de uma criatura do Mangue trouxe desarranjo muito srio a D. Zulmira.
Presumia-se em segurana, to segura que, ouvindo falar em maridos infiis, encolhia os ombros, sorrindo:
- Todos eles so assim. No se tira um.
Tirava-se o dela, naturalmente, e, inteirandose da histria desgraada, percebeu que neste mun do s h safadeza e ingratido. O sujeito barbudo tinha
subido muito - e a superioridade que a inchava ia minguando.
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Olhou-se ao espelho do guarda-vestidos, viu-se mida e cercada de um nevoeiro. Enxugou os olhos, observou os dentes e os cabelos, corrigiu as duas
rugas da testa, as pregas dos cantos da boca. Achouse vtima de traio e injustia, o corao continuou a engrossar. Precisou alargar mais o vestido.
A uma idia lhe apareceu. Foi  porta, trancouse a chave, voltou para diante do espelho e comeou a despir-se lentamente, examinando os seios, a pele
que se amarelava, as dobras do ventre. Pouco satisfeita com o exame, vestiu um roupo e foi sentar-se na cama. Enrolando os dedos curtos na franja da
colcha, durante alguns minutos transformou-se numa criancinha. Toda a clera havia desaparecido.
Inventariou os defeitos do marido, um monstro. Gostou do nome e repetiu-o, convenceu-se de que realmente vivia com um monstro e era muito feliz.
Ps-se a choramingar, cultivando aquela dor que se tinha suavizado e era quase prazer. Os soluos espaaram-se, o diafragma entrou a funcionar
regularmente. De longe em longe um suspiro comprido esvaziava-lhe os pulmes. O choro manso corria-lhe pelo rosto e desmanchava a pintura.
Ergueu-se, dirigiu-se de novo ao espelho, achouse feia e lambuzada. Foi ao lavatrio, abriu a torneira, lavou a cara, ficou muito tempo enxugandose.
Em seguida regressou  cama, onde se acomodo para sofrer mais. O choro no voltou, agora os suspiros obedeciam aos desejos dela e tinham pouca
significao. Isto lhe causou certo desapontamento.
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Afirmou que o encontro do marido com a mulher do Mangue era fato ordinrio.
- Todos eles so assim. No se tira um.
Alarmou-se por se ter conformado to depressa. Quis reproduzir o desespero, os soluos, articulou baixinho o palavro indecente com que tinha comeado
o espalhafato, mas isto no trouxe o efeito desejado.
O que sentiu foi uma estranha languidez. As plpebras cerraram-se, o corpo morrinhento resvalou, a cabea encostou-se no travesseiro, a mo curta
insinuou-se no decote e experimentou a quentura do peito. Declarou a si mesma que era uma pessoa incompreendida. No era bem o que tencionava
exprimir, mas possua vocabulrio reduzido, e a palavrinha familiar, vista em poesias de moas, servia-lhe perfeitamente.
Incompreendida. Sem fazer exame de conscincia, achou-se pura, at pura demais. Esta convico lhe deu grande paz, que foi substituda por um vago
mal-estar, a impresso de se ter resguardado sem proveito.
Chegara ao quarto como um gato zangado, agora se estirava como um gato em repouso. Vivera alguns anos assim gata, bem domesticada, arranhando pouco,
miando pouco, entregue aos seus deveres de bicho caseiro.
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Olhou com desconsolo as patas macias e as garras vermelhas, bem aparadas. Sentiu novo aperto no corao, o diafragma contraiu-se, um bolo subiulhe 
garganta e outros soluos rebentaram. Enganada por um tipo ordinrio, a quem se juntara sem entusiasmo. Tentou ver as garras bonitas, manchas rseas
quase invisveis. Atravs das lgrimas, as patas macias deformavam-se, achatavam-se.
Estirou os braos, com vontade de rasgar panos. No queria ser um animalzinho bem ensinado, comer, engordar, consertar meias, dormir, pentear os
cachos do pequeno Moacir. Achou o quarto vazio e estreito, desejou sair, livrar-se daquilo. A lembrana do homem gordo e da mulher do Mangue era
insuportvel.
Infelizmente D. Zulmira se tinha habituado a um grande nmero de amolaes e receava no poder viver sem elas. Declarou mais uma vez que sempre havia
procedido corretamente. Aumentou a falta do marido, julgou-o criminoso e porco. Assentoulhe adjetivos speros e fechou os olhos, planeando uma
vingana muito agradvel. O homem barbudo sumiu-se. Os soluos de D. Zulmira decresceram, os suspiros encurtaram-se, agitaram-lhe docemente as asas do
nariz.
E, metida num sonho cheio de realidade, D. Zulmira pecou por pensamento, pecou em demasia por pensamento.
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Um pobre-diabo

ESTENDEU a mo ao deputado governista e balbuciou algumas palavras confusas, de que ele mesmo ignorava a significao. O gesto era contrafeito:
enquanto o brao avanava timidamente, o resto do corpo se retraa, parecia querer recuar para alm da parede. Correu a vista pelos quadros ali
pendurados, deteve-se numa paisagem verde e azul, bastante desenxabida. Teve a impresso de que, se continuasse a encolher-se, iria achatar-se como a
paisagem  coqueiros verdes e cu azul. A voz era uma espcie de ronco inexpressivo.
- Homem das cavernas, monologou. Criatura paleoltica. Homem das cavernas, sem dvida.
Mas, em vez de dizer qualquer coisa que melhorasse a sua triste situao, pensou nos trogloditas e, como se achava perturbado, confundiu-os com a
multido que fervilhava l embaixo, na rua. Avizinhou-se da janela. As pessoas que rolavam nos automveis apareceram-lhe armadas e ferozes,
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cobertas de peles cabeludas. Olhou com desgosto a mo que tinha apertado a mo do poltico influente. Comprida, fina, intil.
A chamin da fbrica elevava-se a distncia. Anncios verdes, vermelhos, acendiam-se e apagavam-se. O letreiro de um jornal reluzia em frente, num
quinto andar. quela hora o elevador enchia-se, tipos suados, de roupas frouxas, entravam e saam. Os nibus e os bondes moviam-se devagar, como
formigas, e a carga deles aumentava ou diminua nos postes, uma parte esgueirava-se na sombra  linhas insignificantes dentro da noite.
- Criatura paleoltica. Mos compridas, finas, inteis.
Esta incoerncia irritou-o. Desejou afastar-se, atravessar a porta, entrar no corredor, virar  esquerda, tocar um boto, descer, ziguezaguear  toa
pela cidade, trao insignificante.
Chegou-se  mesa. Ouvia desatento a voz sonora do poltico, sentia nela estranho poder, achava natural que na cmara as galerias se excitassem e
batessem palmas escutando-a. Notava apenas que ela o jogava para direes contrrias: a porta meio cerrada e a parede onde se penduravam os coqueiros
verdes e o cu azul.
Pensou no jogo de bilhar. Mass? Era, devi. ser mass. A bola avanava, mas recuava antes de alcanar a tabela ou outra bola. Jogo difcil. Mass?
Tinha ouvido a palavra. Ouvido ou lido, no sabia direito. Bola de bilhar. Isto. Bola de bilhar no tem memria.
Em todo o caso o deputado governista era um
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bom jogador. Via-lhe a mo curta e gorda, bem tratada, muito branca, e lembrava-se dos artigos e dos livros que ela havia redigido. Imaginou-a
mexendo-se no papel com segurana, compondo uma prosa gorda, curta e branca, prosa que lhe dava sempre a idia de toicinho cru. Detestava aquilo,
desprezava o autor, um pedante, homem de frases arrumadas com aparato. Lendo-o, sentia-se duplamente roubado. Em primeiro lugar perdia tempo. E como
levava uma vida ruim, gastando solas sem proveito em viagens s reparties, achava injustia a ascenso do outro. Injustia, evidentemente. Um roubo.
A amargura e o veneno desapareciam. Apertava as mos midas, tentava dominar a carne bamba, que pesava demais, queria despregar-se dos ossos. Se ao
menos tivesse uma cadeira para se sentar, a atrapalhao ficaria reduzida. Recostar-se-ia, cruzaria as pernas, balanaria a cabea aprovando,
naturalmente. Pareceria um sujeito educado. Mas assim de p no se agentava: ora caa para um lado, ora caa para outro, escorava-se  mesa, no
podia resistir ao desejo de subir nela. As ndegas encostavam-se  tbua, pouco a pouco iam ganhando terreno, firmavam-se, uma perna se levantava,
balanava.
O poltico influente passeava sem se fatigar. Dava trs passos, parava, voltava-se, dava trs passos novamente, tornava a parar, e assim por diante.
Mquina bem construda, nenhuma pea prejudicava a funo das outras. E falava. Quando se detinha, a mo curta e gorda movia-se traando vagamente no
ar a figura de um vaso, um vaso bojudo que encerrava o discurso.
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Que dizia o deputado? No podia compreender, mas deviam ser coisas graves e corretas, diferentes daquela prosa escrita, gorda e mole. Encolheu-se
cheio de respeito, vencido pelo som e pelo gesto conveniente.
Em casa, de pijama e chinelos, em frente do livro ou do jornal, ser-lhe-ia fcil discutir e indignarse, catar minudncias, concluir que estava sendo
roubado. Soltaria o papel, acenderia o cigarro, deitarse-ia na cama. Depois retomaria com rancor o livro ou o jornal, torceria o nariz a um defeito
qualquer, e o defeito se alastraria na pgina inteira como ndoa. Diria injrias mentalmente ao deputado, comparar-se-ia a ele, queixar-se-ia da
sorte.
Agora estava distrado e incapaz de julgar. As palavras do orador perdiam-se, confusas. O que havia era o gesto, o gesto que desenhava no ar figuras
bojudas. Teve a impresso extravagante de que a sala se enchia de panelas. Isto lhe causava srio transtorno, porque, andando com firmeza no soalho
bem envernizado, o poltico havia crescido muito. Sumira-se o escritor medocre. Um sujeito respeitvel movia-se com aprumo e dignidade. Os olhos
duros e cinzentos contrastavam com a voz suave; a queixada larga avanava, agressiva, armada de fortes dentes amarelos; os cantos da boca pregueavamse
ligeiramente; o rosto vermelho tomava a aparncia de uma cara de gato.
Sentiu medo. Quis afastar-se  e percebeu que estava sentado na mesa, diante do orador governista, que se conservava de p. Escorregou para o cho,
envergonhado.
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Recordou-se da situao difcil em que se tinha achado muitos anos antes, ao descer de um bonde. Correra perigo imenso, e ainda se arrepiava ao passar
por aquela amaldioada esquina. Desenroscara-se do banco, pisara no estribo, saltara no asfalto, dera dois passos para a calada de uma drogaria, onde
caixes e um poste pintado de branco fechavam o caminho. Um buzinar de automvel,  direita, esfriara-lhe o sangue.  esquerda uma carroa de leiteiro
ia passar em frente ao bonde parado. Os trs veculos combinavam-se perfeitamente: o bonde continuaria a viagem depois da passagem da carroa; o
automvel, sem diminuir a marcha, formaria com a parte traseira dela um ngulo reto. Fora meter-se ali, no espao minguado. Mexia-se desordenadamente
e no conseguia orientar-se. Num segundo revolvera na cabea muitas coisas desencontradas: cenas da infncia, a escola, o professor ranzinza, empregos
ordinrios, dias de fome, o pigarro antiptico da mulher da penso. A morte buzinava, empurrava-o para todos os lados, fazia-o danar no asfalto como
uma barata doida. Se retrocedesse, no alcanaria o estribo do carro. Com um salto poderia chegar  calada, mas os caixes cresciam, oscilavam,
ameaavam cair, esmag-lo antes que o automvel o tocasse. O poste oscilava, as casas em redor oscilavam, os andares altos da drogaria queriam desabar
e obstruir a rua. Apenas o bonde se imobilizara. A carroa de leiteiro movia-se no mesmo lugar, o automvel rodava uma eternidade sem adiantarse.
Fugira-lhe a conscincia. Ia tropear, tombar, esquecer as casas, os veculos e as pessoas. Acordara
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abraado ao poste, achatando-se como uma lagartixa, forcejando por livrar-se de um objeto spero que lhe roava as costas. Pisara a calada,
apoiara-se a um caixo, desmaiado e quase idiota.
A angstia que experimentara naquele dia voltava-lhe agora, ao descer desajeitadamente da mesa. Avanou atordoado no soalho, ouviu passos  direita,
temeu recuar, pareceu-lhe que o poltico ia transform-lo numa pasta vermelha. No ousou virar-se para a esquerda, onde qualquer coisa devia
fechar-lhe o caminho. Ficou ali de p, sentindo vagamente que, se conseguisse andar dois metros, evitaria um desastre.
Deu algumas pernadas e encostou-se  parede, respirando a custo. Bem. Estava em segurana. Afirmou que estava em segurana, e a idia do perigo
sumiu-se completamente. A presena do orador governista j no lhe inspirava temor: o que lhe causava era admirao, respeito supersticioso. O olho
duro e cinzento continuava a fixar-se nele como um olho de cobra.
- Em segurana.
Apesar de se ter dissipado o pavor que o agarrara ao afastar-se da mesa, no se resolveria a abandonar o refgio conquistado junto  parede, ao p da
janela.
Quis ver a rua novamente. Se voltasse o rosto, avistaria a chamin da fbrica, o arranha-cu que tinha uma redao no quinto andar. O elevador subia e
descia, reprteres apressados entravam e saam.
No se voltou: uma grande preguia amarravao, dava-lhe jeito de esttua.
- Esttua muito mal arranjada, pensou.
E sorriu, descobrindo que no perdera o discernimento.
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Tentou aparentar desembarao, falar. A voz rouca, metlica, fanhosa, escapou-lhe como um grunhido.
Aquela voz horrvel sempre lhe causara prejuzos. Conhecendo as desvantagens que ela produzia, calava-se diante de pessoas estranhas, manifestava-se
por meio de caretas.
No sabia precisamente o que dizia naquele instante. Repetiu as ltimas palavras do deputado e logo se conteve. O som desagradvel trouxe-lhe a idia
de serras chiando em madeira dura. Talvez a repetio fosse inconveniente ou viesse retardada, fora de propsito. Fazia com efeito um minuto que o
orador andava em silncio, certamente esperando que ele se despedisse. A mo deixara de agitar-se acariciando a frase redonda, as figuras bojudas como
panelas tinham desaparecido.
Bem. Achou que a personagem diminura um pouco, tomara propores quase vulgares. A pupila dura espetava-o, mas o discurso findara  e evidentemente
existia reduo.
Precisava sair dali, percorrer as avenidas, entrar nos cafs, abalroar os transeuntes, escutar pedaos de conversas, desviar-se dos carros, ver
miudinhos os tipos imponentes e dominadores. Aquela entrevista, que lhe havia colado no esprito algumas esperanas, acabava mal. Nem o pedido,
laboriosamente preparado, conseguira formular. As esperanas pouco a pouco se desgrudavam  e ele esmorecia, como uma grande ave depenada.
Um arrepio atravessou-lhe a coxa, subiu o tronco e foi morrer nos msculos do pescoo, entortando-lhe
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o rosto e livrando-o dos olhos maus do orador governista. Examinou com ateno distante a moldura dourada que cercava os coqueiros verdes e o cu
azul. Novo arrepio. Uma grande ave depenada e friorenta.
Lembrou-se de outra moldura que lhe havia cado, anos atrs, em cima da cabea. Escrevia com dificuldade, folheando o dicionrio; o quadro pesado se
despregara e lhe partira o couro cabeludo.
Desviou-se precipitadamente, levantou o brao para se defender. O poltico influente interpretou mal o gesto e estendeu-lhe a mo:
- Adeus.
- Muito obrigado, Doutor, respondeu sem refletir.
O resto se perdeu num murmrio. Deu uns passos vacilantes na madeira envernizada e escorregadia, retirou-se tonto, sentindo na cabea a pancada que
lhe tinha rachado o couro cabeludo anos atrs.
Ao cerrar a porta, respirou com alvio. Meteu-se num corredor escuro, dobrou esquinas, parou, apertou um boto, acendeu um cigarro, pensou nos
telegramas estrangeiros lidos pela manh. Penetrando no elevador, mastigava o cigarro, nervoso.  medida que descia tranqilizava-se. E ao pisar na
calada, criticava livros, mentalmente. A literatura do poltico era com efeito ridcula.
Remoeu as coisas desparafusadas que ele escrevera. Malucas, absolutamente malucas.
Roeu as unhas com fria e multiplicou o deputado:
- Cretinos.
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Uma visita

O diretor da revista, o romancista novo e a cantora de rdio saram do automvel, atravessaram a cancela, penetraram na quinta, onde bichos invisveis
acordaram com o rumor dos passos na areia. Chegaram-se  casa. O escritor decadente recebeu-os  entrada, cheio de sorrisos. S conhecia o diretor da
revista, mas baralhou as apresentaes, multiplicou os abraos e bateu castanholas com os dedos para demonstrar que eram todos amigos velhos.
Entraram. Os visitantes no sabiam direito que tinham ido fazer. O diretor da revista recebera o convite e levara no carro dois companheiros
disponveis. Na sala encontraram um velho bicudo e um rapaz zarolho, que, logo nas primeiras palavras, se manifestaram torcedores do escritor
decadente.
Iniciou-se uma conversa ambgua, em que as seis pessoas, desorientadas, cantavam loas umas s outras. O velho bicudo xingou de poetisa a cantora de
rdio e o romancista novo foi considerado jornalista. Sentaram-se.
Uma pretinha de olho vivo trouxe uma bandeja de caf, o escritor decadente distribuiu as xcaras  e pouco a pouco se tornou claro o fim da reunio. A
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princpio houve frases vagas, equvocos, depois a ameaa definiu-se e o papel datilografado surgiu de repente em cima da mesa.
A pretinha de olho vivo retirou a bandeja. O velho bicudo e o rapaz zarolho aproximaram as cadeiras. O romancista novo, o diretor da revista e a
cantora de rdio, inquietos, consultaram o relgio, que marcava dez horas por cima da cabea do dono da casa, e pediram a Deus um trabalho pequeno ou
longo demais, to longo que no pudesse ler-se numa noite. Avaliaram o nmero de pginas, verificaram se as linhas estavam espaadas e desanimaram: a
obra indita no era curta nem comprida. E a leitura principiou, fanhosa, encatarroada, com um pigarro que findava em assobio encerrando os perodos
extensos.
- Bonito, exclamou o velho bicudo.
Como o aplauso era inoportuno, o escritor decadente fez uma pausa e atentou no velho com severidade. A pupila certa do zarolho aprovou o dono da casa,
a outra fixou-se na porta e mostrou aborrecimento profundo.
- Isto merece explicao, murmurou a voz fanhosa adoando-se.
- Perfeitamente, concordou o diretor da revista.
Mas no ligou importncia  explicao: examinou
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os mveis antigos e a cabea do escritor decadente, uma cabea esquisita, com jeito de po de acar, rodeada de cabelos brancos, pelada no cocuruto,
semelhante a uma coroa de frade.
Que haveria nos papis? Ento aquele homem no tinha experincia, no compreendia que uma leitura assim era intil, ningum prestava ateno ao que
ele dizia? Calculou o espao que as folhas poderiam tomar na revista ou no suplemento semanal de um jornal grande. Seria melhor que o homem tivesse
feito artigos. Claro. Artigos de cem ou duzentos mil-ris. Talvez menos, provavelmente menos de cem.
- timo, bradou percebendo um assobio mais forte que rematava captulo.
E imediatamente pensou na tiragem da revista, procurou descobrir o motivo da reduo que tinha aparecido nos ltimos nmeros. Precisava mudar uns
correspondentes ineptos e ocupar-se mais com a matria paga. Por que teria sido aquela diminuio? Lembrou-se de vrias causas e afinal encolheu os
ombros. Sabia l! O pblico tem caprichos, no se pode afirmar que isto ou aquilo vai agradar. s vezes gosta de um sujeito e de repente cansa.
Sentiu as plpebras pesadas, reprimiu um bocejo, continuou a dizer no interior:
- De repente cansa.
Mas ignorava a quem se referia. Um galo cantou na quinta adormecida, um cachorro vagabundo uivou longe.
- Cansa, cansa.
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Repetindo a palavra, tentava firmar o pensamento em qualquer coisa e vencer o sono. Endireitou-se na cadeira, abriu muito os olhos, esforou-se por
conserv-los escancarados. No produzindo efeito o exerccio a que se entregava, fez uma tentativa desesperada para alcanar a significao da prosa
que vinha dos pulmes cavernosos do homem. Prosa que vinha dos pulmes cavernosos? No era isto. Dos pulmes cavernosos vinham um pouco de ar viciado
que passava por vrios lugares e se transformava em prosa. Que lugares? No sabia. Em todo o caso era fenmeno curioso o ar converter-se em prosa
medida, certinha, gramatical.
Notou que o sono tinha fugido, convenceu-se de que possua muita fora de vontade e seria capaz de passar a noite ali, obrigando as idias
disciplinadas a marchar para entret-lo e Quis recordar novamente a escassez da matria paga, os correspondentes e a reduo da tiragem, mas
desviou-se deste assunto que lhe havia provocado o entorpecimento. Observou, com simulada indiferena, os seios e um pedao de ndega da cantora de
rdio.
- Boa. Infelizmente estava sentada. Em p, caminhando, era magnfica.
- Sim senhor, muio boa. No automvel, roara por acaso a coxa dela.
Um sopro nauseabundo transformar-se em prosa artstica. Bonita frase. Resolveu aproveit-la em conversa, mas achou que ficaria melhor escrita.
Desanimou: estava agora quase certo de a ter lido.
Por acaso, naturalmente.
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L vinha de novo um bocejo a descerrar-lhe os beios, afastar-lhe as queixadas.
Por acaso, naturalmente. As idias misturavam-se. Que  que tinha acontecido por acaso? Tentou lembrar-se, enquanto olhava o nariz, a boca funda e a
testa proeminente do velho bicudo, uma cara que, vista de perfil, semelhava uma faca cheia de dentes.
Por acaso. Sim, encostara a perna por acaso na coxa da cantora. E deixara-se ficar junto dela, sacudido pelos movimentos do carro, amolecido, como se
a perna j no fosse dele.
- Boa, muito boa.
Um sorriso largo imobilizou-lhe os msculos do rosto, um calafrio correu-lhe o corpo. E derreou-se na cadeira, vencido pelo calor.
A voz fanhosa tinha baixado, era um zumbido inexpressivo. O cachorro tornou a uivar, o galo cantou novamente. Um vento morno entrava por uma janela,
agitava os penduricalhos do abat-jour e os cabelos que enfeitavam o crnio polido e vermelho do escritor decadente.
Quando a pretinha de olho vivo se retirou com a bandeja, o romancista novo meteu a mo no bolso para tirar um cigarro. Depois do caf, nunca deixava
de fumar. O escritor decadente empilhava os papis em cima da mesa e estendia-se em consideraes sobre o trabalho que ia ler.
- Admirvel, balbuciou o romancista novo procurando o cinzeiro.
Mas o cinzeiro estava no outro lado da mesa, perto do rapaz zarolho. A leitura comeou, o velho
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bicudo exclamou "Bonito" e recebeu uma censura muda.
- Vou passar a noite sem fumar, suspirou o romancista novo furioso, sorrindo e balanando a cabea num gesto de aprovao.
Teve acanhamento de interromper a cerimnia indo buscar ou pedindo o cinzeiro: ficou sentado com a mo no bolso, machucando o cigarro, projetando
vinganas. Aperreava-o aquele horrvel calor, o vento morno que lhe aquecia as orelhas. Comeava a antipatizar fortemente com o rapaz zarolho. Tinha
conhecido um sujeito como aquele muitos anos antes. Onde? quando? Uma cara assim plida, um bugalho zombeteiro. Quem seria? Procurou, procurou, afinal
renunciou  busca e pensou nas amabilidades prfidas que um crtico lhe endereara na vspera, lisonjas suficientes para arrasar um livro. Teria sido
melhor receber um ataque feroz, em redao de carta annima, desses que aparecem s vezes nas folhas da provncia. Odiou o crtico. Safadeza: louvara
exatamente as coisas mais bestas que ele havia escrito.
Sentiu a pupila do zarolho fiscalizando-o, teve a impresso de que o tipo mangava dele. Virou o rosto, notou que as plpebras do diretor da revista se
cerravam, temeu adormecer tambm.
Na sala quente a voz fanhosa e encatarroada zumbia, o velho bicudo erguia os braos com entusiasmo, aproximava-os como se quisesse bater palmas.
- Cretino. De repente a figura esquecida surgiu. Era o
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professor de geografia, um horror que tinha aquele olho vidrado, parecia no ligar importncia s pessoas a quem se dirigia, examinava os objetos
afastados, vigiava sem querer todos os alunos. Lembrou-se de que esse professor de geografia venerava o escritor decadente. Fora ele que, nas horas de
recreio, lhe impingira a literatura oca e palavrosa que agora ouvia distrado. Recordou o que experimentara naquele tempo, menino de calas curtas,
leitor de romances de capa e espada, livros de viagens e contos obscenos. O diabo do vesgo lhe pusera nas mos um volume cheio de arrumaes difceis.
Indignara-se, resistira  influncia do mestre, que pregava o dedo amarelo numa pgina, tentava mostrar-lhe com pacincia belezas imperceptveis.
Tinha-se habituado s viagens maravilhosas, aos folhetins, s histrias indecentes. As personagens da fico iam visit-lo na cama. E uma peste lhe
afirmava que o que valia era aquilo: palavras incompreensveis, dispostas cuidadosamente. Chorara, despedira-se dos seus queridos heris das
aventuras. Estpido. Julgara-se estpido por no descobrir o que havia de bom na obra recomendada.
O autor agora estava ali, despejando frases da boca mole, gargarejando vogais sonoras no fim dos perodos.
- Estpido, estpido. 
Alegrou-se dizendo mentalmente que o homem era estpido. E sorria, balanando a cabea, aprovando aquelas misrias.
A necessidade de fumar tornou a aparecer-lhe. Voltou-se, tentou medir a distncia que o separava
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do cinzeiro, ainda se remexeu para ir busc-lo. Ningum lhe percebeu a inteno. O diretor da revista cochilava. Os outros fingiam escutar a leitura.
Apenas o zarolho fixava nele o bugalho.
- Patife.
A associao que se havia operado no esprito do romancista novo fez que o insulto resmungado se aplicasse indiferentemente ao rapaz zarolho e ao
professor de geografia.
O vento morno continuava a entrar pela janela. Um cinzeiro  disposio de um sujeito que no fumava. Tudo assim, tudo mal distribudo.
Machucava cigarros inteis e sentia-se leve, o vento morno o transportava para longe dali.
- Patife.
Era o professor de geografia, o bruto odioso que lhe incutira confuso terrvel na pobre cabea. Um dedo amarelo sublinhando as expresses mais
vistosas, um olho torto e severo ameaando autores ausentes, o outro admirando guloso o livro aberto.
- Canalha.
Evitara o bicho desalmado, mas assistira  morte dos heris de capa e espada, ficara muito tempo desgostoso, sem achar quem os substitusse. E uma
dvida comeara a ro-lo Teriam as palavras desusadas mais valor que as ordinrias? No gostava delas, adormecia lendo-as, mas invadira-o um medo
supersticioso do literato incompreensvel.
Ainda agora, soprando no calor e triturando cigarros, conservava aquele receio vago. Talvez na prosa balofa e antiquada houvesse qualquer coisa que
ele no podia sentir. O escritor decadente, um
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pobre-diabo, tivera admiradores sinceros. Seria realmente um pobre-diabo? Onde andaria quela hora o professor de geografia? Esforou-se por entender
alguns perodos. Inutilmente. Experimentou a mesma averso que o enchera em criana, quando vira o dedo longo pregado na pgina, a unha amarela
indicando mistrios.
O cachorro distante uivou pela segunda vez. Em que estariam pensando as criaturas ali presentes? O velho bicudo extasiava-se num sorriso baboso. Uma
parte do zarolho escutava a leitura e o resto se enjoava em excesso. O diretor da revista escancarava os olhos, resistindo ao sono. A cantora de rdio
pregava um cotovelo na mesa e encostava a testa na palma da mo. Nem se mexia.
No momento em que a moleca retirou as xcaras e a bandeja, a cantora viu o monte de folhas, notou o perigo, estudou as caras dos companheiros. Em
seguida encolheu-se e baixou a cabea. Pouco a pouco, embalada pela msica fanhosa, distraiu-se, brincando com a pulseira. No calor medonho o vestido
apertado incomodava-a demais, as calas molhadas de suor colavam-se-lhe s coxas. Se estivesse em casa, meter-se-ia no banheiro.
Abriu a bolsa, tirou o lpis mido e a caderneta, rabiscou um nmero de telefone.
O escritor decadente interpretou isso mal, suspendeu a leitura e mandou-lhe um fnebre sorriso de agradecimento.
A cantora de rdio continuou a bulir na pulseira, pensou com desgosto no marido, de quem mal recordava as feies. Em trs anos de afastamento
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esquecera-o. Se o encontrasse na rua, passaria indiferente. No princpio da separao imaginara que se arriscava: aquela pessoa antiptica se havia
grudado a ela, era um rgo necessrio. Receava a amputao. Contudo o pedao cortado no lhe fizera nenhuma falta.
O galo cantou, o cachorro uivou, mas a moa no os ouviu. Lembrava-se da vida de solteira, das praias de banhos e do carnaval, da liberdade que o
casamento suprimira. Licena para sair, hora certa para entrar, um indivduo ciumento a arred-la das janelas, a determinar-lhe o comprimento dos
cabelos e o decote dos vestidos. Chateava-se. No queria enganar o tipo a que se tinha juntado, mas aquela intromisso nos seus gostos dava-lhe frias
de rebentar pratos. Nunca rebentara nada. Como era de natureza tranqila, agentara um ano de amolao. Afinal se desligara.
O sapato do zarolho encontrou-lhe o p por baixo da mesa e logo se desviou. As peas do mecanismo da cantora funcionaram com o fim de levantar os
ombros, estirar o beio inferior, produzir uma ligeira expirao pelo nariz e pequenas oscilaes de cabea, mas receberam impulso fraco, e os
movimentos esboados foram quase imperceptveis. A moa permaneceu com o cotovelo sobre a mesa e a testa apoiada na palma da mo. Estava cansada,
morrinhenta, as coxas num banho de suor. Quando o sapato do vizinho lhe tocou pela segunda vez o p, virou com dificuldade a cabea, ergueu as
plpebras pesadas, estendeu o brao livre e segurou molemente o cinzeiro. O zarolho desviou a cadeira com precipitao.
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Cansada, amodorrada, a fisionomia do marido avivando-se e desbotando. A voz antiga reapareceu, fanhosa, ranzinza, dando leis a respeito do corte dos
cabelos e da cor da roupa. Hora para sair, hora para entrar  e ela andava na rua como se estivesse amarrada por um cordel.
Olhou os livros das estantes, teve a impresso de que eles haviam sido pigarreados por vozes fanhosas, ouvidas por pessoas sonolentas, em noites de
calor. E todas as vozes ordenavam que as mulheres fossem marionetes, puxadas a cordes.
Estirou as pernas entorpecidas, espreguiou-se na cadeira, moderadamente, percebeu o tique-taque do relgio, a pancada de uma porta, um uivo lamentoso
a distncia. Voltou a cabea para o mostrador. Mas levantou-se antes de ver os ponteiros.
Estavam todos de p. O velho bicudo dava pulinhos e agitava os braos como se quisesse voar; o rapaz zarolho tinha um brilho de entusiasmo no olho
certo; o romancista novo murmurava amabilidades que estivera a compor no fim da leitura; o diretor da revista, arrancado aos cochilos, engasgava-se e
apertava atrapalhado as mos do dono da casa.
- Lindo, lindo, exclamou a cantora de rdio. 
No achou coisa melhor para dizer. Tambm no desejava mostrar-se. Queria livrar-se depressa, rodar para casa, tirar a roupa molhada, tomar um banho e
dormir.
- Lindo, muito lindo. 
Ajeitou o chapu, agarrou a bolsa e as luvas. Retiraram-se.
O escritor decadente acompanhou-os ao porto
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balbuciando agradecimentos. Quando o automvel se afastou, recolheu-se, meio trpego, ficou  porta, esfregando as mos, levemente comovido. Depois
abraou o rapaz zarolho e o velho bicudo. Supunha que os trs l fora lhe atacavam ferozmente a literatura. Sacudiu a cabea, tornou a esfregar as
mos: tinha tido um pequeno triunfo e no queria pensar em coisas tristes.
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Silveira Pereira

QUE mais me desgosta aqui na penso  o hspede do quarto 9, sujeito de cara enferrujada que se tranca o dia inteiro e no cumprimenta as pessoas.
Pelo menos no me cumprimenta. Desconsiderao:  impossvel que no me veja quando nos encontramos na escada. Ao sentar-se  mesa, abre um livro ou
jornal, enruga a testa  e  como se ali no estivesse ningum.
Os outros hspedes me escutam, ou antes fingem escutar-me: sei perfeitamente que no prestam ateno s minhas conversas, mas so amveis. Vem-me
quando passo e ouvem o que digo. Eu queria provar a eles que no sou uma criana, procedo como entendo e minha me confia em mim. Isto, porm, seria
inconveniente: se eu aludisse a minha me, logo enxergariam em mim um rapazola que o ano passado vivia preso, com hora certa para entrar em casa.
Sinto que no me tomam a srio e esforo-me
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por vencer a indiferena ambiente. No, no  isto. H at muita benevolncia nas caras que me cercam. O que preciso  dar cabo dessa benevolncia,
mostrar que sou um homem. Se eu tivesse barba, passaria dias sem ir ao barbeiro, sairia  rua com o rosto peludo. Infelizmente estas bochechas lisas e
vermelhas no inspiram respeito.
Afirmo que sou estudante. Engrosso a voz e afirmo que sou estudante. Na provncia eu imaginava que isto me daria prestgio. No d.
O nmero 7  empregado no comrcio, o 5  oficial do exrcito, o 2  funcionrio aposentado, a senhora do 4, viva, idosa e surda, s se ocupa com
igrejas. Essa gente desconhece o que significa um estudante.
Encomendei cartes de visita, largos, vistosos, com letras bem gradas: Fulano de tal, estudante. Pensariam talvez que sou acadmico. Distribu os
cartes, no ligaram importncia a eles. Tambm a idia de oferecer um carto ao nmero 7!
Sou um intelectual. Vi este nome h dias numa revista e fiquei gostando dele.  bonito.
Minha me no tem noo do que estou fazendo aqui, pensa que vou ficar doutor logo, ignora que o curso de humanidades  muito comprido. Muito
comprido. Pacincia. Enquanto espero, mandei fazer um smoking, que est enrolado numa toalha, com pacotes de cnfora nos bolsos, por causa das traas.
No vo as traas roer a seda da gola. E aprendi a fumar. Isto no me d prazer, mas  necessrio. O que eu desejava era demonstrar quele sujeito
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do nmero 9 que ele no tem razo para me considerar menino. No, estou enganado. O nmero 9 no me considera isto nem aquilo: retira-me do mundo, e 
o que me aperreia.
Vi-o h tempo descer a escada com um rolo de papis debaixo do brao e presumi que ele fosse literato. Alegrei-me. Tenho vontade de ser literato, no
agora, naturalmente: para o futuro, quando terminar o meu curso de direito. Direito ou medicina? Bem, no sei, qualquer coisa. Indispensvel  ter um,
e chegarei l, hei de chegar l, porque meus tios e minha me acham que a gente deve formar-se. Preciso comportar-me com juzo para virar doutor.
Depois serei literato.
Diante das vitrinas das livrarias, sonho, fao projetos: seria bom ver o meu nome na capa de um livro.
Quando o nmero 9 desceu a escada, trombudo, com o rolo de papis debaixo do brao, disse comigo: " um literato." E de repente admirei-o. Abandonei
as lies e estive duas noites trabalhando num conto, que saiu bom. Corrigi-o, mandei copi-lo a mquina, passei dias esperando coragem para mostr-lo
ao homem. Recebeu-o, leu-o devagar, sentado  cabeceira da mesa, enquanto bebia caf. As rugas da testa apareciam e desapareciam, os olhos baixos
escondiam-se por detrs dos culos escuros, a cara balofa e amarela no se mexia. Calculem a minha inquietao, ali torcendo-me na cadeira, diante do
monstro gordo e mole que, de olhos ausentes, chupava o caf, com as folhas datilografadas encostadas ao aucareiro. Leu e devolveu-me a literatura
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em silncio. Uma ofensa grave, como vem. Engoli-a porque no tive outro jeito e porque me parece que o sujeito  importante. Reparei bem no rolo de
papis que ele trazia debaixo do brao, um rolo enorme. Que haveria nele?
O nmero 9 tem a amarelido e a tristeza do homem de pensamento e conserva luz no quarto at alta noite, o que faz D. Aurora resmungar e queixarse. D.
Aurora embirra com essa histria de trabalhar  noite.
Foram os vidros iluminados e o rolo de papis que me fixaram a resoluo de escrever o conto. Pensei que o 9 me pudesse dar um conselho til.
Enganeime: aquela gordura fria de capado nem buliu.
A princpio fiquei muito perturbado, supondo que o meu conto no prestasse. Realmente nunca aprendi essas coisas, sou um ignorante. Mas seria
necessrio aprend-las? H indivduos que estudam em vo. O nmero 9 devia ser um desses. O dia inteiro trancado, gasto enorme de luz  e no fim era
aquilo: macambzio, grosseiro. Certamente no havia percebido as minhas letras. Julguei-me uma pessoa incompreendida. Achei bonito o adjetivo e
repeti-o vrias vezes a colegas que me escutam. Pessoa incompreendida.
A vizinhana dos colegas deu-me a idia de fundar um jornal. Escrevi diversas cartas a minha me pedindo dinheiro para livros e matrcula, combinei o
negcio com a tipografia  e em menos de um ms o plano amadureceu, era como se o jornal existisse. Acostumei-me a pedir colaborao aos amigos e a
falar muito alto no telefone. Piso firme diante
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da porta do nmero 9, deso a escada batendo os calcanhares, chego a um canto da sala de jantar, movo o disco. Desligo o aparelho e ponho-me a
conversar sozinho meia hora. Entretenho-me nesses monlogos, discuto, falo sobre a tiragem, tenho a iluso de que a folha vai surgir no dia seguinte.
Passa-se o tempo, desanimo, receio no efetuar o meu desejo. Continuo, entretanto, a cultiv-lo, a rodar o disco do telefone, a dirigir-me a criaturas
imaginrias.  impossvel que, por muito ocupado que esteja, o nmero 9 no me oua. Fao um barulho to grande que ele tomar conhecimento da minha
arte. Hei de arrumar o conto numa primeira pgina, com entrelinhas. Quando isto acontecer, deixarei exemplares do jornal esquecidos em cima dos
mveis. O homem pegar um por acaso e ficar espantado vendo o meu nome.
Talvez no fique,  at possvel que ignore o meu nome. Eu, que ainda sou novo na penso, tenho dvidas a respeito do dele. Pereira ou Silveira? O
hspede do 7 diz que  Silveira, mas a viva do 4 afirma que  Pereira, e D. Aurora concorda com os dois. Creio que ele se chama Pereira Silveira, ou
Silveira Pereira. Afinal estou perdendo tempo, o sujeito no merece que a gente se incomode assim com ele. Deve ser um pobre-diabo carregado de
achaques e dvidas.
Preciso meter a cara no estudo, para agradar minha me. Estou cru. Nem sei ler francs,  uma lstima. Vou agarrar-me aos livros.
Tomo a resoluo e no me agarro. Penso nas mulheres da penso aqui ao lado. Abro a janela, e
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vejo a alguns metros de distncia um quarto forrado de papel vermelho, um pedao de cama e enorme quantidade de frascos. Para que tantos frascos? s
vezes,  noite, aparecem na cama pernas de mulher. Com semelhante vizinhana, no posso traba- lhar. Debruo-me  janela e fumo, espiando essas coisas
e as folhas da palmeira do jardim.
O pensamento vagabundo vai, vem  e escorrega para Silveira Pereira. Aperto os dedos, com raiva. O que devo fazer  ocupar-me com o jornal. Mas isto
equivale a ocupar-me com Silveira Pereira: a lembrana do jornal s me veio porque desejei chamar a ateno dele. Essa necessidade de mostrar-me ao
diabo do homem, de lhe dar impresso favorvel, enjoa-me. Que ganho eu com isso? E por que fui escolher exatamente Silveira Pereira? Ele no tem nada
de particular,  um tipo ordinrio. Modos indistintos, roupas indistintas. E caminha lento, de cabea baixa. O que o caracteriza  o hbito de mexer
os beios para dentro, como se tivesse vontade de com-los. Fora isso, um vivente apagado.
Antes de conhec-lo, arranjei meio de ir a uma festa e surgi na sala de jantar vestido no smoking. Foi um escndalo: D. Aurora e a viva do 4
assustaram-se.
Hoje isso no me satisfaria. O meu desejo  convencer Silveira Pereira de que sou um intelectual. Ao sentar-me  mesa, desdobro tiras escritas em cima
do prato. Toda a gente v logo que so originais para a composio. O jornal, sim senhor. Tenho gritado tanto que me comprometi, acabarei realizando o
projeto longamente divulgado. Publicarei dois ou
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trs nmeros, o suficiente para justificar a propaganda. Sairo os artigos dos colegas e sair o conto que Silveira Pereira leu e me restituiu em
silncio. Estar ruim demais o conto? Ou ser que Silveira Pereira no entende disso?
De qualquer forma o homem esquisito me atrapalha. Farei novas tentativas, escreverei outros contos, que no me daro nenhuma vantagem. Talvez dem
desvantagem, uma reprovao, porque enfim estou cru. Alm disso minha me e meus tios xingam sempre os literatos. Devem ter razo. Mas no importa.
Vou fazer outros contos, que mostrarei a Silveira Pereira. Preciso conhecer a opinio de Silveira Pereira.
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POSFCIO
Volta a Gracillano Ramos
ADONIAS FILHO

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Na volta aos romances de Graciliano Ramos, sobre os quais sempre escrevi  proporo em que foram publicados, confesso ser esta  primeira vez que me
aparecem em pleno realismo social. A preocupao estilstica e a sondage psicolgica  dados que levaram alguns crticos a aproxim-lo de Machado de
Assis  no bastaram para ocultar a tendncia visvel, o interesse regional, o acentuado ruralismo. Trabalhando com facilidade e intimismo (e os
depoimentos, Infncia com t Miem irias do Crcere, gravitam em torno de sua reao ante os homens e o mundo), em todas as personagens mantendo o
espao interior, pormenorizada em muitos casos a anlise das paixes, no deixa de ser singular o contato com a terra na busca das conseqncias
sociais. Romancista de uma regio, apesar da constante captao dos valores humanos, pode situar-se ao mesmo tempo em duas posies definidas:
realizador de um documentrio ao modo dos
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neo-realistas e animador do psicologismo em certas linhas extremas.
A inter-relao  to perfeita, entrosando-se o documentrio e psicologismo em uma s estrutura, que a encontraremos inevitavelmente em qualquer dos
romances. Comea aqui, sem a menor dvida, e posso assegurar que exatamente em Caets, a renovao de toda a novelstica nordestina. At o lanamento
do seu livro de estria, torna-se possvel dividir o romance do Nordeste em dois ciclos perfeitamente caracterizados  o ciclo pr-modernista e o
ciclo ps-modernista. No primeiro, o espao da cena  ocupado pela ao episdica, em plano secundrio os elementos sociais (Franklin Tcvora e
Domingos Olympio). No segundo os elementos sociais superam a ao episdica traduzindo rigorosamente o documentrio (Jos Amrico de Almeida e Rachel
de Queiroz). No houve o romance modernista. A colocao, como se v, foi "a priori" e "a posteriori". Mas, ao fechar-se o segundo ciclo, Graciliano
Ramos abre a terceira fase: acrescenta ao documentrio, sem anular a irradiao social, a inquirio psicolgica.
 justo afirmar-se, em conseqncia da interrelao, que Graciliano Ramos trouxe a fico nordestina para o crculo exato em que se move o romance
moderno. No ser difcil entrosar os seus livros  de Caets a Vidas Secas  ao complexo painel que, partindo do localismo para o universal,
empreende a sondagem da alma humana atravs da auscultao de uma determinada zona geogrfica. Repete-se na fico brasileira, no traba-
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lho de um romancista excessivamente pessoal, a experincia que se pode ilustrar com escritores como Andr Malraux, William Faulkner, Greene. No
extremo a base  a mesma. A estrutura social subsiste em funo do acontecimento humano, em todos a explorao das crises interiores, as personagens
dependendo das contingncias (guerra, revoluo, seca) para que projetem os dramas em intensidade. Estabelecida a fuso, sempre o contato do homem com
o cenrio,  natural que a repercusso se individualize. Em Andr Malraux, os efeitos so dialticos. Em Faulkner, so intelectuais. Em Graham Greene,
so metafsicos. Colocando-se a, ele prprio retirando efeitos psicolgicos, Graciliano Ramos pde ampliar a pena e valorizar a novelstica que
encontrara.
A flagrante exterioridade, muitas vezes atingindo o paisagstico, perde o domnio que exercia. Restringe-se o elemento descritivo. A narrao, que era
meramente episdica, transforma-se, condensando, e adquire mais forte capacidade de representao. A imediata decorrncia ser um novo contedo, nele
o problema humano preenchendo o maior espao. Mas, o que me parece importante  o romancista dele aproveitar-se para, sem elimin-lo, fundamentar o
realismo social. A primeira concluso a aparecer pois,  a de que a representao social resulta do ncleo humano, as personagens em parte
relacionadas com a condio humana e s posteriormente na dependncia das fronteiras regionais. A personagem lrica, aqui, no  possvel. Tamanha
necessidade de humanizao que,
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para assegur-la, Graciliano Ramos no subordina apenas o cenrio ao homem, mas no homem penetra em busca dos grandes problemas. Torna-se um analista
metdico,  discreto, obstinado, como o fora Machado de Assis.
 to intransigente na revelao da personagem, nessa necessidade em apresent-la em funo da natureza humana, que obscurece o cenrio. Em um romance
pelo menos - Angstia - o palco desaparece. Erguendo a um plano alto o tratamento interior, o que me parece singular  ainda ser possvel conjugar o
homem ao cenrio e, reunindo-os, organizar uma concepo realista do mundo nordestino. Em Caets, o romance da estria, j se evidenciava aquela
fuso, mostrando-se a vida em uma pequena cidade do Nordeste. O ambiente se exibe, animam-no os tipos comuns: o bacharel, o padre, o comerciante. Se
em Valrio e Luiza convergem os germes que se hipertrofiaro em Angstia, as implicaes sociais crescero em S. Bernardo. No romance Caets abrem-se
flagrantemente as duas tendncias: o documentrio que caracterizar Angstia. Em Vidas Secas a fuso  completa.
Os romances, como vemos, constituem um bloco. Isoladamente, encontrar-se- em qualquer deles a indispensvel autonomia. Mas, porque configuram uma
viso social e uma percepo psicolgica  interpenetrando-se o homem e o cenrio 
 que se torna justo reconhecer em Graciliano Ramos o ficcionista que renova a novelstica nordestina. A expanso episdica, sempre normal, se
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restringe para permitir a apario dos grandes elementos humanos. Mesmo em S. Bernardo, livro que se estrutura em um fundo social impressivo (o
comportamento do fazendeiro e a posio do trabalhador rural), o romancista no consegue evitar o exame psicolgico.
Essa preocupao com a criatura  permanente, de preferncia os humildes, seu drama simples enchendo as pginas. O instinto de humanizao, que
valoriza definitivamente a fico de Faulkner, hipertrofia-se de tal modo no romancista brasileiro que atinge animais e aves (o papagaio e a cachorra
em Vidas Secas). A decorrncia  que o documentrio se enriquece de maneira impressionante. Ser Amando Fontes, neste particular, no crculo da
novelstica nordestina o companheiro de Graciliano Ramos. Em ambos, a base humana constitui o grande lastro, o cenrio como um reflexo das sombras dos
homens e das mulheres. Mas, antes que possamos alcanar o documentrio em todos os efeitos, temos que isolar Angstia na obra do romancista. Nele, o
cenrio desaparece totalmente. A cena inteira  ocupada pelo homem - um homem singular - que revela a sua experincia antes e aps o crime. O drama
intenso se limita a um indivduo, suas reaes, seus sofrimentos, seu delrio. Na amplitude dessa personagem, entretanto, encontraremos os valores
humanos que, acima do cenrio, movimentam o documentrio.
O documentrio, em Graciliano Ramos, se estabelece atravs do conjunto  o homem e o cenrio  em circulao geogrfica definida. O
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romancista no sai da zona nordestina, de uma regio nessa zona, revelando-a na paisagem e no habitante. Uma das suas caractersticas (a seca) ser
aproveitada, mas em percepo diferente, afastando a temtica do ciclo tradicional. O ciclo de Franklin Tvora e Jos Amrico de Ameida avana em
extroverso, sendo panormica a sua projeo, interrompe-se, porm, em Vidas Secas. A projeo agora  vertical. O que importa no  a seca em sua
possibilidade descritiva, mas a conseqncia no corao das criaturas. Para o romancista no ser rigorosamente um tema. Pretexto regional, em
verdade, que mostrar, dentro do cenrio, a miservel condio social do sertanejo.
Em Vidas Secas, muito mais que nos outros romances, a responsabilidade da personagem  indiscutvel. O homem, a mulher, os meninos, a cachorra.  a
pobre famlia do serto, triste, embrutecida, resignada. Contrariando o regionalismo clssico  Monteiro Lobato, por exemplo  Graciliano Ramos
trabalha a personagem anteriormente, nela respeitando a formao, a inteligncia e o instinto. Descobre-se a si mesma, o monlogo como um veculo,
integrada no grupo social primrio. Atento  fixao realista (na linguagem, nas reaes, no comportamento), o romancista mostra os contatos e as
relaes por intermdio do processo mental. O plano em que se pode conservar o vaqueiro Fabiano no  ultrapassado. Sua capacidade de raciocnio, a
absoluta integrao na famlia, o estoicismo, so dados psicolgicos incensurveis. As humildes ambies, os pequenos sonhos, nem isso a destinao
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lhe permite. A seca espreita a fora o nomadismo. E creio ser possvel afirmar que dessa fuso da personagem com a terra  o homem com o cenrio  sai
o drama que transmite ao livro a descarga nervosa.
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DADOS BIOGRFICOS DE GRACILIANO RAMOS

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1892 - A 27 de outubro, nascimento em Quebrangulo (AL). Filho de Sebastio Ramos de Oliveira e Maria Amlia Ferro Ramos, casal que teve dezesseis
filhos, sendo Graciliano o primognito.
1894 - Mudana para Buque (PE).
1898 - Primeiros exerccios de leitura.
1900 - Mudana para Viosa (AL).
1904 - Fundao de um jornal de crianas, Dilculo, do qual foi diretor.
1905 - Colgio do Prof. Agnelo, em Macei (internato). Aparecimento dos primeiros sonetos, publicados sob pseudnimo.
1910 - Mudana para Palmeira dos ndios (AL). Trabalho no estabelecimento comercial paterno.
1915 - Mudana para o Rio de Janeiro. Revisor em trs jornais: Correio da Manh, A Tarde e O Sculo. Colaborao no jornal Paraba do Sul, de Paraba
do
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Sul (RJ), assinando vrios contos inditos.
1915 - Regresso a Palmeira dos ndios. Casa-se com Maria Augusta Barros. Abertura de uma loja de fazendas.
1920 - Enviva com quatro filhos menores.
1921 - Colaborao em O ndio, jornalzinho dirigido pelo Pe. Macedo, com pseudnimo de J. Calixto.
1925 - Incio de Caets.
1926 - Presidente da Junta Escolar de Palmeira dos ndios.
1927 - Eleito Prefeito de Palmeira dos ndios.
1928 - Toma posse do cargo de Prefeito. Casa-se em Macei com Helosa de Medeiros. Concluso de Caets.
1929 - Primeiro relatrio do Prefeito de Palmeira ao Governador do Estado.
1930 - Segundo relatrio. Renuncia ao cargo de Prefeito, sendo nomeado Diretor da Imprensa Oficial do Estado de Alagoas. Mudana para Macei.
Colaboraes em diversos jornais, assinando-se Lcio Guedes em algumas delas.
1931 - Demite-se do cargo de Diretor da Imprensa Oficial.
1932 - Volta a Palmeira dos ndios. Fundao de uma escola na sacristia da Igreja Matriz, onde foram escritos os primeiros captulos de So Bernardo.
1933 - Nomeado Diretor da Instruo Pblica de Alagoas. Publicao de Caets. Incio de Angstia.
1934 - Publicao de So Bernardo.
1936 - Priso sem processo em Macei, de onde segue para Recife e Rio.  demitido do cargo de Diretor da Instruo Pblica. Publicao de Angstia.
Ganha o prmio Lima Barreto, conferido a Angstia, pela Revista Acadmica.
1937 -  solto. Obtm o prmio de literatura infantil do Ministrio da Educao com A Terra dos Meninos Pelados.
1938 - Publicao de Vidas Secas.
1939 -  nomeado Inspetor
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Federal no Ensino Secundrio.
1940 - Traduz Memrias de um Negro, do norte-americano Booker Washington.
1942 - Publicao de Brando entre o Mar e o Amor, romance em colaborao com Rachel de Queirs, Jos Lins do Rego, Jorge Amado e Anbal Machado,
sendo a sua parte intitulada "Mrio".  comemorado o seu 50 aniversrio, com um jantar no Lido, onde recebe o prmio Felipe de Oliveira, pelo
conjunto de obras.
1944 - Publicao de Histrias de Alexandre.
1945 - Ingressa no PCB. Publicao de Infncia, Dois Dedos (Contos  edio M. M. de luxo).
1946 - Comparece ao 3 Congresso de Escritores, em Salvador. Traduz o romance A Peste, de Albert Camus.
1951 -  eleito Presidente da Associao Brasileira de Escritores (ABDE). Comparece ao 4 Congresso de Escritores, em Porto Alegre.
1952 -  reeleito Presidente da ABDE. Vai  Unio Sovitica, visitando ainda Portugal, Frana e Tcheco-Eslovquia. Regressa ao Rio de Janeiro. Adoece
gravemente. Viaja para a Argentina, onde  operado sem xito. Retorna ao Rio de Janeiro.  comemorado solenemente o seu 60 aniversrio.
1953 - Internado em uma casa de sade em Botafogo, falece a 20 de maro; sepultado na manh do dia 21 s 10 horas, no Cemitrio de So Joo Batista,
saindo o corpo do salo nobre da Cmara dos Vereadores. Publicao de Memrias do Crcere.
1954 - Publicao de Viagem.
1957 - Publicao de Contos e Novelas, antologia organizada por G. R.
1961 - Lanamento oficial das suas obras completas, no Ministrio da Educao e Cultura.
1962 - Vidas Secas recebe o prmio da
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fundao norte-americana William Faulkner, como o livro representativo da literatura brasileira contempornea.
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